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segunda, 14 junho 2021 17:17

Casos fatais em alérgicos: podemos evitá-los?

As picadas de insetos, a toma de medicamentos ou a ingestão de alimentos não são, frequentemente, nem reconhecidas nem valorizadas como responsáveis por quadros fatais. Até dia 19, decorre a Semana Mundial das Alergias 2021 dedicada à anafilaxia.

A forma mais grave de manifestação de alergia é a anafilaxia — reação imunológica imediata e potencialmente fatal, traduzindo uma verdadeira explosão da nossa imunidade contra alergénios a que estamos sensibilizados.

Afeta cerca de 2% da população, sendo a alergia alimentar a primeira causa de anafilaxia. Os alergénios alimentares maioritariamente implicados são o leite, o peixe, o ovo, os mariscos, o amendoim e os frutos secos e frescos. Mais recentemente emergiram outros alergénios como é o caso do sésamo.

Em muitos destes doentes, o contato com alergénios, mesmo em quantidades mínimas, pode ser muito perigoso.

Os alergénios podem estar ocultos em alimentos processados ou, mesmo, em medicamentos, podendo colocar em risco de vida o doente com anafilaxia — por exemplo, o leite misturado com sumos de frutas ou incluído em licores, ou frutos secos em barras de cereais, bem como alguns medicamentos, nomeadamente injetáveis, que contêm alimentos na sua composição.

Foi muito importante no nosso país a adoção de legislação que obriga a que os alimentos com potencial alergénico elevado devam ser obrigatoriamente referidos nas rotulagens ou nas ementas.

Não podemos esquecer outras causas de anafilaxia, como a alergia a veneno de insetos, abelhas ou vespas, bem como situações de alergia medicamentosa — a primeira causa de anafilaxia nos serviços de saúde.

Os acidentes relacionados com a toma de medicamentos devem ser sempre notificados e bem conhecidos pelo próprio, pela sua família e pelos seus conviventes, incluindo pela equipa de saúde. As reações relacionadas com picadas de insetos, especialmente se muito graves, devem ser rapidamente referidas ao médico assistente, o que geralmente não é efetuado. E a situação pode traduzir um risco de vida permanente.

Frequentemente são noticiados casos fatais em alérgicos a medicamentos ou a venenos, muito mais podendo ser feito para prevenir estas trágicas ocorrências.

Se é bem conhecido que a asma pode ter um desfecho mortal, as picadas de insetos, a toma de medicamentos ou a ingestão de alimentos não são, frequentemente, nem reconhecidas nem valorizadas como responsáveis por quadros fatais.

A imunoalergologia baseia a sua atividade na promoção da saúde, prevenindo, a vários níveis, situações que afetam a qualidade de vida das populações, em especial nos doentes com anafilaxia. O reconhecimento destes quadros clínicos muito graves, permite definir medidas de atuação em termos de diagnóstico e de tratamento, oferecendo alternativas, alimentares e/ou medicamentosas, planeando a atuação de emergência se os sintomas ocorrerem.

Uma unidade de saúde não está sempre ao nosso lado e é possível efetuar intervenções terapêuticas específicas, que têm de ser necessariamente orientadas por especialistas em doenças alérgicas, com treino e experiência. Falamos, por exemplo, em vacinas antialérgicas para venenos de insetos ou para alergénios de frutos, e em protocolos de indução de tolerância para medicamentos, incluindo quando existem reações graves a vacinas, como ocorre atualmente com as vacinas contra a covid-19, ou para alimentos, como o leite ou o ovo.

Sendo a anafilaxia uma situação de emergência médica, estes doentes têm indicação para possuírem dispositivos de autoadministração de adrenalina (“canetas”), cujos custos são totalmente comparticipados.

Por tudo isto, é necessário que os cidadãos com anafilaxia, adultos ou crianças, grávidas ou idosos, sejam rapidamente encaminhados para esta especialidade e que todos os profissionais de saúde compreendam a importância da notificação e da referenciação.

Acrescento ainda que na atual pandemia, os serviços de saúde estão preparados para receber em segurança todos os que deles necessitam. Adiar cuidados pode ser muito perigoso.

Promovida pela Organização Mundial de Alergia, justifica-se plenamente uma Semana Mundial das Alergias 2021 dedicada à anafilaxia, porque os casos de anafilaxia existem e podem ser muito graves. A qualidade de vida é muito afetada, mas a solução do problema está ao nosso alcance.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

FONTE - Público

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