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domingo, 03 junho 2007 20:38

Comportamentos Comunicacionais Assertivos e Burnout nos Profissionais de Enfermagem

Escrito por 

Existem ainda diferenças significativas entre a dimensão despersonalização e o trabalho por turnos, sendo que os enfermeiros que não trabalham por turnos apresentam valores médios mais baixos, ou seja, adoptam comportamentos impessoais e frios para com as pessoas com quem se relacionam com menor frequência.

 

Nursing nº 221

 

“COMPORTAMENTOS COMUNICACIONAIS ASSERTIVOS E BURNOUT NOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM”

“ASSERTIVE COMUNICATION AND BURNOUT ON NURSING PROFESSIONALS”

 

Hugo João Fernandes Amaro

Licenciado em Enfermagem

Mestre em Psicologia da Educação

 

Saúl Neves de Jesus

Professor Doutor e coordenador de Psicologia na Universidade do Algarve

 

 

RESUMO

O burnout representa um aspecto relevante nas profissões em que as relações humanas são particularmente importantes e em que os níveis de exigência e perfeccionismo são elevados, como é o caso da profissão de enfermagem. Estudos efectuados salientam a influência que as relações interpessoais possuem nesta conjuntura, na medida em que profissionais que estabelecem relações interpessoais insatisfatórias encontram-se mais vulneráveis ao burnout.

Compreender se os enfermeiros adoptam comportamentos assertivos e qual a relação entre este comportamento comunicacional e o seu nível de burnout constitui o objectivo deste estudo.

A amostra é constituída por 239 enfermeiros que exercem funções em instituições de saúde públicas do Algarve.

Os resultados indicam que os enfermeiros adoptam comportamentos assertivos com muita frequência. Existe uma correlação positiva entre a adopção de comportamentos assertivos e a realização pessoal, assim como uma correlação negativa entre comportamentos assertivos e a dimensão despersonalização. Os enfermeiros que trabalham por turnos apresentam níveis de despersonalização mais elevados e níveis de realização pessoal inferiores.

 

Summary

Burnout represents an important roll on professions that human relations are particularly important, as well as high standards of perfectionism, such as the nursing profession. Recent research on nurses’ has shown the existence of an uneasiness in the nursing career with regard to interpersonal relationships. Nurses who establish unsatisfactory interpersonal relationships are more vulnerable to burnout.

This presentation, which takes those studies into account, aims mainly to understand if nurses use assertive communication skills on their daily work and if there is any relation between this kind of communication and their burnout.

The sample was constituted by 239 nurses’ working in public health institutions in the Algarve region of Portugal.

The results indicate that nurses’ use assertive communication skills very often. There is a positive association between the adoption of assertive skills and sense of personal achievement, as well as a negative relations between the adoption of assertive skills and personal detachment. Nurses’ working in shifts are more likely to conflict and showed higher levels of personal detachment and fewer levels of personal achievement.

 

1. INTRODUÇÃO

Os princípios inerentes à profissão de Enfermagem e que fazem com que a mesma se trate de uma profissão humanista, salientam a importância que os relacionamentos interpessoais assumem. Na sua actividade profissional, é necessário que o profissional de Enfermagem possua a capacidade de estabelecer uma relação interpessoal eficaz, quer com os seus utentes e família, quer com toda a equipa multidisciplinar, na qual se insere.

A comunicação interpessoal, consiste numa relação recíproca, assimétrica e dialéctica entre duas ou mais pessoas, no sentido de enviar e receber mensagens, verbais ou não verbais, em que os intervenientes deste processo possuem a capacidade necessária, para estabelecer uma relação que tenha por base a empatia, congruência, humanismo e autenticidade (Riley, 2004; Smith, 1992; Rogers, 1983).

O processo de comunicação interpessoal, surge assim como um processo extremamente importante na actividade diária do enfermeiro, sem o qual, a prestação efectiva de cuidados de enfermagem perde a sua qualidade, ou simplesmente encontra-se impossibilitada de se realizar.

As componentes humanistas referidas anteriormente como inerentes ao relacionamento interpessoal eficaz, constituem o cerne da comunicação assertiva. Neste sentido, Atkinson e Murray (1989) salientam que o comportamento comunicacional predominantemente assertivo, face aos comportamentos comunicacionais passivos e agressivos, parece ser aquele que facilita e promove as relações interpessoais adequadas, facilitando assim o processo de cuidar em Enfermagem, minimizando os conflitos interpessoais que se fazem sentir no seio da profissão.

O comportamento comunicacional predominantemente assertivo, pode ser entendido como um modelo comunicacional em que o indivíduo procura expressar as suas opiniões ideias e sentimentos de forma livre, honesta e responsável, não desvalorizando porém os sentimentos e ideias dos outros (Riley, 2004; Leebov, 2003; Clark, 2003; Smith, 1992). É um comportamento comunicacional que facilita e promove as relações interpessoais, minimizando o conflito e o mal-estar entre indivíduos.

Jesus (2001) procurou compreender as causas de mal-estar nos profissionais de enfermagem, sendo que de acordo com os resultados do estudo efectuado por este investigador, 100% dos participantes referiram a dificuldade nos relacionamentos interpessoais como uma das principais fontes de mal-estar/stresse a nível profissional.

Conscientes deste fenómeno e de acordo com estudos efectuados anteriormente, interessa compreender a relação existente entre a adopção de comportamentos comunicacionais predominantemente assertivos e o burnout.

O conceito de burnout, foi proposto pela primeira vez pelo psicanalista Herbert Freudenberg em 1975, em que o autor define o síndrome de burnout como sendo um estado de fadiga física e mental ou uma frustração devido a um projecto que fracassou ou a um relacionamento interpessoal altamente stressante. Assim, poderemos entender, na perspectiva de Freudenberg (1975), que o burnout define-se como sendo um conjunto de sintomas a nível biológico, físico e psicológico inespecíficos, resultantes de uma exigência profissional excessiva permanente e continuada, sobretudo nas profissões em que as relações humanas assumem contornos importantes. Posteriormente, Maslach e Jackson (1982) acrescentam que o burnout trata-se de um síndrome de exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal, que se verifica com grande frequência em indivíduos que desempenham a sua actividade profissional com pessoas, como é o caso da profissão de enfermagem.

Um estudo efectuado por Tormina e Law (2000) em que estas investigadoras estudaram 154 enfermeiros de cinco hospitais de Hong Kong, verificaram que os enfermeiros que possuíam níveis académicos mais elevados, apoio profissional e com capacidades de lidar mais eficazmente com o stresse (comportamentos comunicacionais assertivos), apresentavam níveis reduzidos de burnout, o que confirma estudos anteriores efectuados por Angel e Petronko (1983) com enfermeiros norte-americanos. No nosso país, Queirós (2004) efectuou um estudo de âmbito nacional, em que de acordo com o autor, um em cada quatro enfermeiros apresentava burnout no trabalho, sobretudo nos profissionais em que existe pouca união na equipa de enfermagem (relações interpessoais insatisfatórias).

 

2. METODOLOGIA

2.1. OBJECTIVO

Compreender se os profissionais de enfermagem adoptam comportamentos comunicacionais predominantemente assertivos em contexto profissional e a relação existente entre a adopção de comportamentos assertivos e o burnout constitui o objectivo central desta investigação.

 

2.2. AMOSTRA E PROCEDIMENTO

A população de onde se extraiu a amostra foi constituída pelos enfermeiros que desempenham funções em unidades de saúde públicas do Algarve. Optou-se pelos enfermeiros que desempenham funções em unidades de saúde públicas, pelo facto de a grande maioria dos profissionais de enfermagem desempenharem funções neste tipo de unidades de saúde. Desta forma, a nossa amostra foi inicialmente constituída por 293 enfermeiros, sendo que ficou reduzida a 239 enfermeiros, por terem sido rejeitados 54 questionários que não se encontravam devidamente preenchidos.

Como método de amostragem, foi utilizada a técnica de amostragem por clusters, particularmente útil quando o Universo é grande e os casos se encontram agrupados em unidades ou clusters (Hill & Hill, 2002). Neste sentido, começámos por seleccionar a fracção de amostragem, ou seja, qual a percentagem de unidades de saúde a seleccionar para o nosso estudo. Optámos assim por utilizar uma fracção de amostragem equivalente a 40% das unidades de saúde públicas no Algarve. Posteriormente, de forma a seleccionarmos as unidades de saúde onde iria ser aplicado o instrumento de colheita de dados, foi utilizada a técnica de amostragem aleatória, tendo sido seleccionados os Centros de Saúde de Lagos, Silves, Lagoa, Faro e Tavira, bem como o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, EPE.

O instrumento de colheita de dados foi distribuído durante o mês de Fevereiro de 2005 aos Enfermeiros Chefes de cada Centro de Saúde, bem como aos Enfermeiros Chefes de cada serviço da unidade hospitalar escolhida, que após ter sido devidamente explicado o objectivo do estudo e forma correcta de preenchimento do instrumento, se comprometeram a distribuir o mesmo pelos seus subordinados.

A amostra do estudo foi constituída maioritariamente por sujeitos do género feminino 75,7%, enquanto que 24.3% eram do género masculino, conforme se encontra explicitado no gráfico 1. As idades encontravam-se compreendidas entre os 22 e 62 anos, o que corresponde uma média de idades de 32,66 anos, onde 49,4% dos participantes possuem idades compreendidas entre 22 e os 30 anos, 21,3% entre os 30 e os 38 anos, 20,9% entre os 38 e os 46 anos, 6,3% entre 46 e 54 anos e 2,1% entre 54 e 62 anos de idade, conforme se encontra representado no gráfico 2.

A grande maioria dos participantes (75,7%) é de nacionalidade portuguesa, enquanto que os restantes (24,3%) são de nacionalidade espanhola.

No que concerne à categoria profissional, a maioria (50,2%) possui a categoria profissional de enfermeiro, conforme se representa no gráfico 3. Do total da nossa amostra 76,2% desempenha funções numa unidade hospitalar, enquanto que 23,8% fazem-no num centro de saúde. Relativamente ao trabalho por turnos, 61,9% desempenha a sua actividade profissional por turnos, enquanto que 38,1% dos participantes não trabalha por turnos. Quanto ao tipo de vínculo à instituição 54,8% encontram-se no quadro da função pública, 41,8% possui um contrato individual de trabalho e 3,3% dos participantes encontra-se a contrato administrativo de provimento, como se representa no gráfico 4.

 

2.3. INSTRUMENTOS DE PESQUISA

O instrumento de pesquisa utilizado neste estudo foi um questionário composto por duas partes, em que a primeira parte é constituída por seis questões fechadas de natureza sociodemográfica que pretendiam avaliar o género, nacionalidade, categoria profissional, tipo de instituição em que exerce funções, trabalho por turnos e tipo de vínculo à instituição e por uma questão aberta que pretendia avaliar a idade dos participantes no estudo.

A segunda parte do questionário é constituída por duas escalas do tipo Likert que pretendiam avaliar a adopção de comportamentos assertivos e o burnout dos profissionais de enfermagem.

Para avaliar a adopção de comportamentos comunicacionais assertivos pelos profissionais de saúde foi utilizada a escala de avaliação de comportamentos assertivos de Amaro e Jesus (2005), constituída por duas sub-escalas designadamente adopção de comportamentos assertivos com os utentes, constituída por seis itens e com um valor alpha de Cronbach de 0.76 e adopção de comportamentos assertivos com a equipa multidisciplinar, constituída por 18 itens e com um valor alpha de Cronbach de 0.89. Após colhidos os dados, o instrumento classifica a adopção de comportamentos assertivos em três níveis: adopta comportamentos assertivos com pouca frequência ([1-3[), adopta comportamentos assertivos com alguma frequência ([3-4[) e adopta comportamentos assertivos com muita frequência ([4-6]).

No que diz respeito ao instrumento de avaliação do burnout, foi utilizado o MBI (Maslach Burnout Inventory) – Human Services Survey, desenvolvido pela investigadora Maslach e particularmente útil na avaliação do burnout em profissionais de ajuda ou de relação, como é o caso dos profissionais de enfermagem. Trata-se de um instrumento constituído por 22 itens distribuídos por três sub-escalas: exaustão emocional, com um valor alpha de Cronbach de 0.90; despersonalização, com um valor alpha de Cronbach de 0.79 e realização pessoal com um valor alpha de Cronbach de 0.71. Pretende a sub-escala exaustão emocional avaliar em relação a sentimentos de estar emocionalmente esgotado e exausto com o trabalho em si. A sub-escala despersonalização pretende avaliar eventuais respostas e comportamentos impessoais e frios para com as pessoas com que se relaciona e a sub-escala realização pessoal pretende avaliar sentimentos de competência e sucesso no trabalho interpessoal.

Perante esta conjuntura e de acordo com Hill e Hill (2002) classificamos o nosso estudo em exploratório, descritivo e transversal, em que foi utilizada uma metodologia do tipo quantitativa.

 

2.4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Para se proceder à análise estatística dos dados recolhidos e mais concretamente no que se refere às técnicas inerentes à estatística descritiva, foram utilizadas a média, desvio padrão, valor mínimo e valor máximo. Referentes à estatística inferencial, as técnicas estatísticas utilizadas foram o teste de Kruskal Wallis, o teste de t de Student e a correlação de Pearson, vulgarmente designado por r de Pearson.

Desta forma, através da análise estatística efectuada ao instrumento de avaliação dos comportamentos assertivos, podemos verificar que a maioria dos participantes do estudo adopta comportamentos assertivos com muita frequência, sendo que os valores médios encontrados entre as sub-escalas A e B e o total da escala são muito semelhantes (ver quadro 1). Os valores percentuais encontrados na nossa investigação referentes à adopção de comportamentos assertivos, são mais elevados na sub-escala A: adopção de comportamentos assertivos com os utentes e no total da escala de avaliação de comportamentos assertivos, face à sub-escala B: adopção de comportamentos assertivos com a equipa multidisciplinar.

No que concerne ao burnout, os valores médios encontrados revelaram a existência de um burnout médio no total da escala, assim como um valor médio de burnout com a dimensão exaustão emocional. Conforme se pode observar no quadro 2, foi ainda possível verificar a existência de um valor de burnout baixo na dimensão despersonalização e um valor de burnout elevado na dimensão realização pessoal, sendo que esta dimensão deverá ser observada de forma invertida, o que na realidade corresponde a uma valor extremamente positivo, na medida em que a dimensão realização pessoal traduz sentimentos e atitudes positivas, comparativamente às demais.

Numa perspectiva exploratória, efectuámos uma análise estatística entre a adopção de comportamentos assertivos e os níveis de burnout nos participantes do estudo, e neste sentido verificámos através da correlação de Pearson a não existência de uma correlação estatisticamente significativa entre estas duas variáveis, não obstante, conforme se pode observar no quadro 3, as análises estatísticas efectuadas demonstraram a existência de uma relação estatisticamente significativa positiva entre a dimensão realização pessoal do burnout quer com o instrumento de avaliação dos comportamentos assertivos (.532), quer com as diferentes sub-escalas que o constituem. Foi ainda possível verificar a existência de uma relação negativa estatisticamente significativa entre a dimensão despersonalização do burnout e a sub-escala adopção de comportamentos assertivos com os utentes (-.346) e o total do instrumento de avaliação dos comportamentos assertivos (-.311).

Nesta medida e ainda mediante uma perspectiva exploratória, procurámos encontrar possíveis diferenças estatisticamente significativas entre as variáveis sociodemográficas e as variáveis de natureza psicológica, respectivamente a assertividade e o burnout.

Assim sendo, através do teste estatístico efectuado entre a variável género e o burnout, verificámos a existência de diferenças estatisticamente significativas na dimensão despersonalização e no total do instrumento de avaliação, sendo que através da análise das diferenças de médias podemos afirmar que são os enfermeiros do género masculino aqueles que apresentam valores de médios de burnout mais elevados, conforme se verifica pela análise do quadro 4.

A análise estatística efectuada entre a variável categorial profissional e as variáveis de natureza psicológica, demonstrou a existência de diferenças estatisticamente significativas entre si, sendo que particularmente no caso da adopção de comportamentos assertivos, através do testes estatístico de kruskal wallis foram encontradas diferenças significativas entre o total do instrumento de avaliação e a sub-escala B: adopção de comportamentos assertivos com a equipa multidisciplinar. Pela análise do quadro 5, verificámos que as médias mais elevadas são encontradas nos enfermeiros chefes, sendo que são os enfermeiros pertencentes a esta categoria profissional, aqueles que adoptam comportamentos assertivos com maior frequência. Por outro lado, no que se refere ao burnout, a análise estatística efectuada demonstrou a existência de diferenças estatisticamente significativas na dimensão despersonalização, em que são os profissionais com a categoria profissional de enfermeiro aqueles que possuem valores médios mais elevados (ver quadro 6).

Relativamente ao tipo de instituição em que exerce funções a análise estatística efectuada demonstrou a existência de diferenças estatisticamente significativas (Sig.= .025) com a dimensão realização pessoal do burnout, sendo que pela análise das médias obtidas podemos afirmar que são os enfermeiros que desempenham funções nos centros de saúde (média= 5.496), aqueles que possuem maior realização pessoal, comparativamente aos que desempenham a sua actividade profissional na unidade hospitalar (média= 5.265).

Verificou-se igualmente a existência de diferenças estatisticamente significativas entre o trabalho por turnos e o burnout. Desta forma, a análise efectuada, conforme se pode observar no quadro 7, demonstrou a existência de diferenças com a dimensão despersonalização e realização pessoal. Pela análise das médias e particularmente na dimensão despersonalização, os valores médios mais elevados foram obtidos nos enfermeiros que desempenham a sua actividade profissional por turnos, enquanto que na dimensão realização pessoal, os valores médios mais elevados foram obtidos pelos enfermeiros que referem não desempenharem a sua actividade profissional por turnos.

Em relação à variável tipo de vínculo à instituição, verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas entre esta variável e a adopção de comportamentos assertivos, uma vez que, como se pode observar pelo quadro 8, as diferenças encontradas são referentes à sub-escala B: adopção de comportamentos assertivos com a equipa multidisciplinar e com o total do instrumento de avaliação, em que pela diferença de médias, verifica-se que os enfermeiros que possuem um vínculo laboral ao quadro da instituição são aqueles que adoptam comportamentos assertivos com maior frequência.

Quanto à relação entre o tipo de vínculo à instituição e o burnout, as diferenças significativas encontradas são referentes às dimensões despersonalização e realização pessoal. No caso particular da dimensão despersonalização, os valores mais elevados verificam-se nos enfermeiros que possuem como vínculo laboral um contrato individual de trabalho, enquanto que na dimensão realização pessoal, os valores mais elevados verificam-se nos enfermeiros que se encontram a contrato administrativo de provimento conforme se verifica pela análise do quadro 9.

 

2.5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

As análises estatísticas efectuadas entre a adopção de comportamentos assertivos e o burnout, demonstram que não existe relação entre a adopção de comportamentos assertivos e o burnout. Apesar de não podermos realizar uma comparação entre os resultados obtidos no nosso estudo e os resultados obtidos noutras investigações, uma vez que não existem estudos realizados em Portugal, todavia, estudos semelhantes (Taormina & Law, 2000; Angel & Petronko, 1983), revelam a existência de uma eventual correlação negativa entre a adopção de comportamentos assertivos e o burnout, o que contraria os resultados obtidos no nosso estudo, pois a análise estatística efectuada demonstrou não existir relação entre estas duas variáveis psicológicas. Ainda nesta linha de pensamento, verificou-se a existência de uma correlação negativa entre a adopção de comportamentos assertivos, quer com os utentes, quer com o total da escala, assim como de uma relação positiva entre a adopção de comportamentos assertivos e a dimensão realização pessoal, no sentido em que, quando os profissionais de enfermagem adoptam comportamentos assertivos com maior frequência, sentem-se mais realizados pessoalmente. Esta evidência estatística, confirma os estudos de Maslach e Jackson (1981), pois estes investigadores definem a dimensão realização pessoal como sendo a percepção que o indivíduo tem do seu sucesso nas relações interpessoais que estabelece.

Coerentemente, se os profissionais de enfermagem adoptam comportamentos tendencialmente assertivos com muita frequência, o sucesso que obtêm nas suas relações interpessoais tende a aumentar e consequentemente a sua realização pessoal. Estas ideias estão de acordo com os estudos efectuados por Queirós (2004) e Jesus (2001), em que estes investigadores verificaram que as relações interpessoais insatisfatórias em enfermagem são uma fonte de mal-estar/stresse para os profissionais de enfermagem. Noutro sentido, quando as relações interpessoais são adequadas não se verifica mal-estar/stresse, o que confirma a ideia de Atkinson e Murray (1989), para quem o comportamento assertivo facilita e promove relações interpessoais mais eficazes. Seguindo esta linha de pensamento e referindo um estudo efectuado por Cronin-Stubbs e Brophy (1985), Serra afirma que “as enfermeiras que apresentam de forma mais acentuada manifestações de burnout têm tendência a (…) passar menos tempo em contacto directo” (1999, 524) com os utentes, estabelecendo relações interpessoais claramente insatisfatórias.

Quanto à relação existente entre a categoria profissional e a adopção de comportamentos assertivos, verificámos que esta é estatisticamente significativa para a adopção de comportamentos tendencialmente assertivos e para a sub-escala B: assertividade com a equipa multidisciplinar. Pela análise das médias, verificámos que os enfermeiros chefes são aqueles que apresentam diferenças mais significativas, sendo que à medida que a categoria profissional aumenta, aumentam simultaneamente as diferenças encontradas, ou seja quando a categoria profissional aumenta, aumenta a frequência de adopção de comportamentos assertivos. Os dados estatísticos aqui apresentados são relevantes, na medida em que os enfermeiros que adoptam comportamentos assertivos com maior frequência, são aqueles que possuem as categorias profissionais mais levadas, o que coincide simultaneamente com aqueles que possuem os níveis académicos mais elevados, pois como sabemos os enfermeiros chefes possuem na sua vertente académica uma pós-graduação/especialidade. Estes dados estatísticos indicam que se pretendemos enfermeiros com comportamentos tendencialmente assertivos é necessário continuar a investir na qualidade da formação dos enfermeiros, quer ao nível da sua formação base, a licenciatura, quer ao nível das pós-graduações, na tentativa de incrementar a adopção de comportamentos assertivos principalmente com os utentes, que são a razão profissional de existência desta classe.

Quanto ao burnout, existe uma relação significativa entre a categoria profissional e a dimensão despersonalização. A análise estatística efectuada demonstra que à medida que a categoria profissional aumenta, os níveis de despersonalização diminuem. É interessante ainda verificar que os profissionais com a categoria profissional de enfermeiro são aqueles que apresentam a média de despersonalização mais elevada, face aos enfermeiros chefes e, simultaneamente, são também os profissionais com a categoria profissional de enfermeiro que apresentam as médias mais baixas relativamente à adopção de comportamentos assertivos, bem como na dimensão adopção de comportamentos assertivos com a equipa multidisciplinar. O facto dos profissionais com a categoria de enfermeiro apresentarem níveis médios de despersonalização mais elevados, ou seja apresentarem com maior frequência respostas e comportamentos impessoais e frios para com as pessoas que se relacionam, está de acordo com as médias inferiores apresentadas pelos mesmos profissionais relativamente à adopção de comportamentos assertivos. Neste sentido, é igualmente importante investir na formação base dos enfermeiros, uma vez que dos profissionais com a categoria profissional de enfermeiro possuem níveis de formação inferiores aos demais.

No que concerne à análise estatística efectuada entre o trabalho por turnos e a variável psicológica burnout, a análise estatística efectuada não demonstrou existir uma relação entre ambos. Contudo, verificámos a existência de diferenças nas dimensões despersonalização e realização pessoal. Existem diferenças estatisticamente significativas nas médias da realização pessoal dos enfermeiros que trabalham e não trabalham por turnos, sendo as últimas ligeiramente superiores, o que confirma os estudos efectuados por Fletcher (2001; in Kettle, 2002). Existem ainda diferenças significativas entre a dimensão despersonalização e o trabalho por turnos, sendo que os enfermeiros que não trabalham por turnos apresentam valores médios mais baixos, ou seja, adoptam comportamentos impessoais e frios para com as pessoas com quem se relacionam com menor frequência. Este facto pode ser explicado, através dos estudos efectuados por Serra (1999), que salienta o facto do trabalho por turnos alterar o ritmo circadiano, o que por sua vez exerce uma influência directa nos aspectos biológicos e emocionais do indivíduo (tais como a tolerância, a paciência, a capacidade de concentração e o raciocínio). O autor acrescenta ainda que devido ao barulho que se verifica durante o dia é normal que estes indivíduos não descansem o suficiente, pelo que quando vão trabalhar sentem-se cansados, sonolentos e desmotivados. Esta ideia está de acordo com o nosso estudo, pois os indivíduos que trabalham por turnos apresentam valores mais elevados de despersonalização.

 

3. CONCLUSÕES

O burnout é um tema relevante para as profissões em que os relacionamentos humanos assumem particular importância, como é o caso da profissão de enfermagem. Neste sentido parece-nos pertinente, numa perspectiva exploratória compreender a possível relação entre a adopção de comportamentos assertivos e o burnout.

Não obstante o facto da análise estatística efectuada não ter determinado a existência de uma correlação estatisticamente significativa entre estas duas variáveis, ficou demonstrada a existência de uma relação entre a adopção de comportamentos assertivos e a realização pessoal, o que nos indica uma estratégia importante na promoção da realização pessoal dos profissionais de enfermagem, diminuindo consequentemente o burnout nesta profissão.

Pensamos também que a relação existente entre a adopção de comportamentos assertivos e a categoria profissional, indica que o facto de serem os profissionais de enfermagem com níveis académicos mais elevados aqueles que adoptam comportamentos assertivos com maior frequência, representa uma necessidade urgente de se aumentar o nível académico dos enfermeiros. Aumentar o nível académico dos enfermeiros não significa somente um aumento quantitativo, estamos convictos de que interessa sobretudo aumentar o nível qualitativo da sua formação, representando os complementos de formação em enfermagem uma oportunidade fulcral para se proceder a esse aumento qualitativo. Desta forma, é importante que, por um lado, as instituições de ensino continuem a formar profissionais de enfermagem sensibilizados para a adopção de comportamentos assertivos, pois como vimos anteriormente os enfermeiros assertivos possuem maior realização pessoal, e, por outro lado, que as diferentes instituições de saúde realizem formação especifica no sentido de capacitarem os seus enfermeiros em particular e os restantes profissionais de saúde em geral com técnicas relativas ao comportamento assertivo, pois, como refere Lloyd (1993) trata-se de um comportamento aprendido.

É ainda importante reflectir acerca do trabalho por turnos, na medida em que este diminui a capacidade de concentração e tolerância dos indivíduos e, no caso particular, dos profissionais de enfermagem, que por terem que lidar de forma directa e permanente com situações stressantes que exigem uma capacidade de raciocínio e concentração superiores, na tentativa de reduzir ao máximo a possibilidade de erro, faz com que estes profissionais de saúde se sujeitem a cometer erros com maior frequência, além de diminuir a qualidade dos cuidados por eles prestados. Assim, e uma vez que não é possível abolir o trabalho por turnos em enfermagem, será importante que os enfermeiros chefes se encontrem sensibilizados para esta problemática, pois compete-lhes a responsabilidade da organização do serviço, e que tenham em mente a necessidade de descansar e realizar actividades de lazer que os enfermeiros que trabalham por turnos possuem, à semelhança dos outros que não exercem a sua actividade profissional por turnos. Será oportuno que a seguir ao turno da noite, o enfermeiro tenha directo à sua folga semanal, no sentido de lhe possibilitar a recuperação do desgaste físico e psicológico a que foi sujeito.

Parece assim importante que, seguindo a linha das ideias apresentadas neste estudo, se desenvolvam investigações posteriores, valorizando as variáveis por nós aqui introduzidas, utilizando uma população de enfermeiros mais alargada e diversificada em termos geográficos. Será de igual forma pertinente, aprofundar os conhecimentos acerca da relação existente entre a comunicação assertiva e o burnout, na medida em que seria frutífero para o Serviço Nacional de Saúde em geral e para os utentes e enfermeiros em particular, a compreensão aprofundada desta problemática, procurando predizer e minimizar efeitos adversos do síndroma de burnout.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Amaro, H. J. F. & Jesus, S. N. (2005). Comportamentos assertivos: um estudo exploratório. Nursing, 199, 24-28.

Angel, G. & Petronko, D. K. (1983). Developing the New Assertive Nurse. New York: Springer Publishing Company, 1-31, 137-176.

Atkinson. L. D. & Murray, M. E. (1989). Fundamentos de Enfermagem: introdução ao processo de enfermagem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan.

Clark, C. C. (2003). Holistic Assertiveness Skills for Nurses. New York: Springer Publishing Company.

Freudenberger, H. J. (1975). The Staff Burnout. Journal of Social Inssues, 30, 159-165.

Hill, M. M. & Hill, A. (2002). Investigação por Questionário. Lisboa: Edições Sílabo.

Jesus, S. N. (2001). Factores de Mal e de Bem-Estar em Profissionais de Educação e de Saúde. In Universidade do Algarve. Estudos de Homenagem ao Prof. Doutor Gomes Guerreiro. Faro: Fundação para o Desenvolvimento da Universidade do Algarve, 199-206.

Kettle, J. (2002). Factors Affecting Job Satisfaction in the Registered Nurses. University of North Carolina, Charlotte, 1-5. Retirado a 21/04/2004 de: http://juns.nursing.arizona.edu/articles/Fall%202002/Kettle.htm.

Leebov, W. (2003). Assertiveness Skills for Professionals in Health Care. Lincoln: iUniverse, 1-46.

Lloyd, S. L. (1993). Desenvolvimento em Assertividade: técnicas para o sucesso pessoal. Lisboa: Monitor, 6-55.

Maslach, C. & Jackson, S. E. (1981). Maslach Burnout Inventory Manual. Palo Alto: CA: Consulting Psychologists Press.

Maslach, C. & Jackson, S. E. (1982). Burnout in the Health Professions: a social psychological analysis. In: G. Sanders & J. Suls (Eds.), Social Psychology of Health and Illness. New York: Erlbaum.

Queirós, P. (2004). Burnout no Trabalho e Conjugal em Enfermeiros Portugueses. Tese de Doutoramento não publicada. Extremadura: Departamento de Psicologia e Sociologia da Educação.

Riley, J. B. (2004). Comunicação em Enfermagem. Loures: Lusociência.

Rogers, C. (1983). Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes.

Serra, A. V. (1999). O Stress na vida de todos os dias. Coimbra: Adriano Vaz Serra, 665-692.

Smith, S. (1992). Communications in Nursing. St. Louis: Mosby Year Book.

Taormina, R. J. & Law, C. M. (2000). Approaches to Preventing Burnout: the effects of personal stress management and organizational socialization. Journal of Nursing Management, 7 (2), 81-90. 

 

PONTOS A RETER

  • As relações interpessoais assumem particular importância na profissão de enfermagem;

  • O comportamento comunicacional assertivo facilita e promove as relações interpessoais, reduzindo o mal/estar existente;

  • O burnout é um síndrome que se verifica frequentemente em indivíduos que desempenham a sua actividade profissional com pessoas;

  • O método amostral utilizado foi o de clusters tendo sido posteriormente utilizado a técnica da amostragem aleatória, tendo sido seleccionados 40% das unidades de saúde do Algarve;

  • Os participantes no estudo adoptam comportamentos comunicacionais assertivos com muita frequência;

  • Os participantes no estudo revelam um nível de burnout médio, e uma realização pessoal elevada;

  • Existe uma correlação positiva entre a realização pessoal e a adopção de comportamentos assertivos, assim como uma correlação negativa entre assertividade e despersonalização;

  • Os enfermeiros com categorias profissionais mais elevadas adoptam comportamentos assertivos com maior frequência;

  • O trabalho por turnos relaciona-se com a despersonalização e com a realização pessoal;

  • É importante formar profissionais de enfermagem com aptidões pessoais na comunicação assertiva, promovendo assim a sua realização pessoal.

 
 


 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

Quadro 1: Médias, desvios padrão e valores mínimos e máximos obtidos nas diversas medidas utilizadas para avaliar os comportamentos assertivos

MEDIDAS MÉDIA DESVIO PADRÃO MÍNIMO MÁXIMO
Sub-escala A: Assertividade com os utentes 5.048 .586 3.17 6.00
Sub-escala B: Assertividade com a equipa multidisciplinar 4.989 .579 3.28 6.00
Comportamentos assertivos 5.004 .533 3.38 6.00

 

 

Quadro 2: Médias, desvios padrão e valores mínimos e máximos obtidos nas diversas medidas utilizadas para avaliar o burnout

MEDIDAS MÉDIA DESVIO PADRÃO MÍNIMO MÁXIMO
Exaustão emocional 3.018 1.091 1.00 5.89
Despersonalização 2.088 .979 1.00 5.00
Realização pessoal 5.320 .678 3.13 6.88
Burnout 3.644 .536 1.82 5.18