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domingo, 31 dezembro 2006 12:22

Cuidados Domiciliários, Uma modalidade de Intervenção

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A enfermagem no domicílio é de âmbito global, isto é, centrada holisticamente, tanto no indivíduo que requer o cuidado, como na família ou no sistema de suporte

 

 

Nursing nº 216

Resumo

Os cuidados domiciliários proporcionam um espaço privilegiado para a promoção e educação para a saúde, tendo em conta a proximidade que podem oferecer, possibilitando e facilitando o contacto e interacção entre os intervenientes, não podendo ser apenas associados e descritos como cuidados prestados em casa.   Deste modo, as visitas domiciliárias representam uma modalidade que proporciona, para além de outros aspectos, contacto, interacção, cuidados e interesse. A mesma deve ser entendida como uma das estratégias de intervenção dos enfermeiros na prestação de cuidados.

Palavras-chave: visita domiciliária; cuidados domiciliários; promoção da saúde; educação para a saúde.  
 

Os cuidados domiciliários representam a componente do cuidado de saúde global continuado (Stanhope, 1999). Desta forma, os cuidados prestados aos indivíduos e às famílias, nos seus locais de residência, têm por finalidade promover, manter ou recuperar a saúde, maximizando o nível de independência ou minimizando os efeitos da deficiência ou da doença terminal (Idem).

Deste modo, os cuidados domiciliários devem ser planeados, coordenados e adequados às necessidades do utente e do respectivo suporte familiar, por profissionais capazes e preparados para tal.

Sorensen e Luckmann (1998, p. 494) chegam a afirmar que “a enfermagem no domicílio é de âmbito global, isto é, centrada holisticamente, tanto no indivíduo que requer o cuidado, como na família ou no sistema de suporte”.

Por sua vez, Garcia (1997), acrescenta que para a concretização e prestação de cuidados no domicílio deve existir responsabilização dos profissionais de saúde, bem como dos utentes e respectivas famílias, sendo que o apoio de familiares e/ou amigos deve ser facilitado e incentivado.

Quando nos referimos a visitas domiciliárias e a cuidados domiciliários devemos ter em consideração que ambos são conceitos, de alguma forma, distintos, contudo complementares e interligados. Porém, para tornar tudo mais confuso, estes termos têm vindo a ser utilizados indiferentemente na literatura.

Todavia, é nossa opinião que a visita domiciliária pode ser definida como uma actividade fundamental das equipas em cuidados de saúde primários e uma das diferentes estratégias de intervenção na prestação de cuidados. Por sua vez, os cuidados domiciliários podem ser definidos como serviços prestados ao indivíduo e respectiva família na sua própria habitação, sendo que o prestador de cuidados domiciliários é uma pessoa ou instituição que presta cuidados no domicílio.

De facto, as definições de visita domiciliária podem variar, contudo todas elas integram as componentes dos cuidados de saúde domiciliários, nomeadamente: o utente, a família, o profissional de saúde e as metas e fins para apoiar o utente a adquirir determinado nível de saúde e de independência.

Sendo assim, a visita domiciliária e os cuidados domiciliários tiveram que passar por um intenso processo de reflexão, maturação e desenvolvimento, que se caracterizou pela identificação de objectivos e de especificação, até adquirirem o significado que actualmente detêm.

É do conhecimento comum que com o aparecimento da vida surgiram os cuidados. Na verdade, o Homem, como todos os seres vivos, sempre necessitou de cuidados, de se cuidar e, em determinadas condições, situações e circunstâncias, de ser cuidado.

Daqui se depreende que desde sempre, e até há pouco tempo atrás, o cuidar [do outro] não pertenceu a uma profissão ou a um ofício. Por sua vez, dizia respeito a qualquer pessoa que ajudava qualquer outra a garantir o que lhe era necessário para continuar a sua vida (Santos, 2002).

Na realidade, este tipo de prestação foi realizado durante algum tempo por grupos religiosos e mulheres, aos quais não era reconhecido um domínio específico de conhecimentos. Mais tarde, as enfermeiras influenciadas pela escola de Florence Nightingale prestavam cuidados de enfermagem com competência e capacidades desenvolvidas, situação esta bem diferente daquilo que até então se verificava.

De facto, as descobertas do fim do século XIX, no domínio da física e da química, permitiram proceder à aplicação desses conhecimentos, modificando totalmente a concepção de cuidados (Collière, 1989), sendo que de diversas formas, Florence Nightingale projectou a Enfermagem como profissão.

Com a evolução e desenvolvimento dos cuidados prestados, os objectivos da prestação de cuidados domiciliários passaram a adquirir outro significado, nomeadamente aquilo a que se pode designar, se possível, de cuidado de saúde relacional. Isto é, a realização e prestação destes cuidados, para além da técnica necessária e fundamental, pressupõem e necessitam do estabelecimento de uma relação terapêutica (profissional – indivíduo – família) que se proporciona através de competências relacionais, exigidas cada vez mais aos profissionais de saúde.

Tal como o conceito de cuidados domiciliários evoluiu ao longo do tempo, também a estrutura e constituição da nossa sociedade é diferente e distinta daquilo que era até então.

Deste modo, com o aumento da esperança média de vida, o envelhecimento progressivo da população, o aumento da proporção de idosos e o défice de camas hospitalares para doentes crónicos ou terminais faz com que as pessoas que mais necessitem de cuidados domiciliários e mais solicitem a visita domiciliária sejam os idosos (Garcia, 1997).

O facto deste grupo etário começar a ser muito numeroso exige e requer uma atenção particular, de modo a definir prioridades. Torna-se importante e, de alguma forma imperativo, o enfermeiro, para além de ser possuidor de competências técnicas, relacionais e científicas, compreender o processo e fenómeno envelhecimento. É também vital o respeito pela dignidade humana na relação com o indivíduo, seja ele qual for, devendo ser respeitado por todos e quaisquer intervenientes no processo de prestação de cuidados. Como acrescenta Santos (2002, p. 49) o indivíduo “não é nem poderá nunca ser «coisificado»”.

Através da visita domiciliária podem obter-se benefícios para os indivíduos, família e sociedade. Os indivíduos continuam no seu meioe com assistência. A família é uma estrutura privilegiada de suporte afectivo, facilitando a colaboração e promoção do auto-cuidado. A mesma constitui um grande apoio que facilita a colaboração e pode melhorar o grau de bem-estar familiar.

Por sua vez, a visita domiciliária tem também benefícios para a sociedade, já que a realização da mesma diminui o número de internamentos nos hospitais e noutras instituições, reduzindo custos decorrentes desses internamentos, e ainda fomentar a ligação e união entre gerações através da promoção do auto-cuidado com o apoio da família.

A prestação de cuidados domiciliários pode ter significados e objectivos diferentes, dependendo do contexto ao qual nos referimos em determinado momento. Vários autores procedem à categorização das visitas domiciliárias de forma diferente. Porém, Garcia (1997), sugere-nos duas categorizações mais recentes. Uma delas é denominada de «trabalho de comunidade» que constitui uma actividade de carácter contínuo, onde a abordagem ao indivíduo engloba as vertentes física, psicológica e social, sendo o indivíduo considerado um ser biopsicossocial. A outra é denominada de «serviço domiciliário curativo ou domicílio» que é dirigida para aspectos curativos e para a resolução de problemas centrados quase exclusivamente em aspectos biológicos.

Interessa-nos transmitir que, independentemente das várias categorizações que estejam estabelecidas e possamos encontrar, a prestação de cuidados domiciliários e a realização de visitas domiciliárias têm de ter em consideração os objectivos da sua execução e efectivação, tendo em conta a situação em causa. É ainda necessário agir de acordo e em consonância com as necessidades do indivíduo em questão, a respectiva família e os recursos ao dispor.

A visita domiciliária difere de outras áreas dos cuidados de saúde porque a prestação de cuidados é realizada no meio ambiente do utente, sendo que há já muito tempo o domicílio é um local onde os enfermeiros têm prestado cuidados.

Nesta modalidade de intervenção os enfermeiros devem estar devidamente capazes e preparados, não só de competências técnicas, mas também providos de competências de comunicação, relacionamento, rentabilização de tempos, espaços e trabalho de equipa com familiares e outros profissionais, tudo isto enquadrado no código deontológico que facilita uma relação ética, respeitando e potenciando a autonomia de cada pessoa.

Desta forma, o ambiente domiciliário coloca desafios ao enfermeiro, sendo necessário estar provido de alguma criatividade e flexibilidade.

Leonardo (1995), acrescenta que a essência do cuidar está na relação enfermeiro – indivíduo, indo ao encontro da pessoa como um todo, com o seu passado, experiências e vivências, tendo a percepção das suas limitações e necessidades, bem como das expectativas dos seus familiares, em função dos recursos disponíveis, actuando tendo como objectivo a promoção da saúde e manutenção da autonomia.

Neste contexto, Silva (1998) leva-nos a reflectir que o apoio domiciliário deve ser iniciado precocemente, para poder ser eficaz e contribuir para a qualidade de vida dos indivíduos. É também importante o respeito pelas convicções (culturais, políticas, religiosas, …) mais íntimas dos indivíduos.

Algumas das vantagens deste tipo de prestação são: a conveniência do utente; o controlo do utente sobre o meio; a capacidade de individualizar serviços e de proporcionar um ambiente de menor tensão para a exposição de preocupações e de necessidades; e o contacto do enfermeiro com o utente e família no seu meio envolvente (Stanhope, 1999).

É uma actividade caracterizada fundamentalmente pela interacção entre indivíduos, sendo que a comunicação assume uma importância decisiva e determinante.

Segundo Fachada (1991, p. 117), “a palavra comunicar provém do latim comunicare que significa «pôr em comum», «entrar em relação com»”. Comunicar é, pois, trocar ideias, sentimentos e experiências entre pessoas, é uma forma de interacção humana, sendo necessário ter consciência de que as pessoas não são todas iguais na sua forma de ser, reacções e comportamentos.

Deste modo, a prestação de cuidados domiciliários é mais que um lugar [alternativo ou opcional] para prestar cuidados; constitui sim, uma modalidade de intervenção.

Desta forma, a visita domiciliária é um dos instrumentos mais indicados para se começar a trabalhar o indivíduo, a família e a comunidade na prestação de assistência à sua saúde, dentro do seu contexto social, desde que seja realizada mediante um processo racional e com objectivos definidos que estejam dentro dos princípios de eficiência.

Ela constitui, assim, uma actividade de assistência à saúde exercida junto ao indivíduo, à família e à comunidade. Visa contribuir para a efectivação das premissas de promoção de saúde definidas pela Organização Mundial de Saúde.

A visita domiciliária permite proporcionar assistência, tendo um objectivo eminentemente educativo. Ela permite orientar, educar, fornecer meios para que o indivíduo, a família e a comunidade tenham condições de se tornarem independentes.

Porém, sendo a visita domiciliária uma modalidade que exige profissionais capazes, qualificados e com disponibilidade de tempo para a sua realização, a mesma busca uma racionalização para esta actividade, nomeadamente no equilíbrio entre custo / benefício, o que pode dificultar a utilização sistemática desta prestação de cuidados.  

É certo que nenhuma profissão, nenhum conjunto de profissionais tem motivo e razão de existir se não pode justificar a prestação de um serviço necessário à população e ao mesmo tempo dar provas e testemunhos da sua capacidade para o prestar (Colliére, 1989).

Para que possa haver um efectivo e verdadeiro reconhecimento dos cuidados de enfermagem como tais, os enfermeiros têm que demonstrar que estes [cuidados de enfermagem] são a expressão e cumprimento de um serviço indispensável, fundamental e necessário independentemente do local ou espaço onde os mesmos sejam realizados e prestados.

Para além disso, para alcançar a excelência da prática de enfermagem no domicílio, é necessário que a mesma se verifique e decorra de acordo com os padrões de enfermagem, com a legislação sobre a prática de enfermagem e de acordo com a preparação e experiência do enfermeiro que a efectua.

Deste modo, importante, relevante e pertinente é também humanizar os cuidados prestados, contribuindo para o aumento da qualidade desses mesmos cuidados. Este deve ser um objectivo a buscar e a alcançar por todos os profissionais de saúde, qualquer que seja a situação e circunstância da prestação dos mesmos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • COLLIÉRE, Marie-Françoise – Promover a Vida. Lisboa: Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, 1989. p. 284-292.

  • COLLIÉRE, Marie-Françoise – Promover a Vida: Da Prática das Mulheres de Virtude aos Cuidados de Enfermagem.  Lisboa: Indústrias Gráficas, 1989. p. 76-99.

  • FACHADA, Maria Odete – Psicologia das Relações Interpessoais. Lisboa: Edições Rumo, 1991. 1.ª Ed. p. 117-125.

  • GARCIA, Elisa – Visita Domiciliária: Tratar ou Cuidar? Servir. Lisboa. Vol. nº 45, nº 1 (Janeiro – Fevereiro, 1997), p. 26-28. ISSN 0871-2370.

  • LEONARDO, Maria – O Idoso e o Ensino de Enfermagem. Geriatria. Lisboa. Ano VIII, Vol. VII, nº 74 (Abril, 1995), p.25-27. ISSN 0871-5380.

  • SANTOS, José Manuel Oliveira dos – Parceria nos Cuidados: uma metodologia de trabalho centrada no doente. Porto: Universidade Fernando Pessoa, 2002. 153 p. ISBN 972-8184-83-2.

  • SILVA, Madalena – Apoio Domiciliário ao Idoso. Geriatria. Lisboa. Ano XI, Vol. XI, nº 106 (Setembro, 1998), p. 16-17. ISSN 0871-5380.

  • SORENSEN; LUCKMANN – Enfermagem Fundamental: Abordagem Psicofisiológica. 1.ª Ed. Lisboa: Lusodidacta, 1998. 1963 p. ISBN 972-96610-6-5.

  • STANHOPE, Márcia; LANCASTER, Jeanette – Enfermagem Comunitária: promoção da saúde de grupos, famílias e indivíduos. 1.ª Ed. Lisboa: Lusociência, 1999. p. 532-538. ISBN 972-8383-05-3.

 

in NURSING, nº 216, Dezembro 2006, Ano 16.

 

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