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domingo, 05 agosto 2007 16:33

O Pai no Parto e a Educação para a Saúde

Escrito por  Olga Romeira

Um casal em que o companheiro está envolvido activamente ao longo de toda a gestação e motivado para desenvolver competências cognitivas e relacionais sobre gravidez e parto, terá maiores probabilidades de vivenciar essa experiência de forma positiva.

 

A  importância  da presença do acompanhante no parto é amplamente reconhecida entre as comunidades científicas da saúde,  mais concretamente nas áreas da obstetrícia e da psicologia da saúde, advindo daí vantagens para a saúde do casal e do bebé, contudo a sua efectividade  em termos de benefícios para  a tríade (mãe/pai/bebé), pode ser avaliada sob muitos aspectos nomeadamente a preparação ou não dos casais para a parentalidade. O papel do homem como acompanhante e fonte de apoio da parturiente é relativamente recente na nossa sociedade,  para o qual questionamos se a maioria dos homens estarão devidamente preparados e motivados face às expectativas das companheiras e das equipas de saúde. Apresentamos algumas perspectivas sobre os sentimentos dos pais a este respeito, com base em revisão de alguns estudos que têm sido desenvolvidos nos últimos anos e apontamos a educação para a saúde como factor facilitador da preparação dos homens para apoiar a companheira no trabalho de parto.

É neste âmbito que temos por objectivos no presente trabalho:

  • Referir a importância da presença do companheiro no trabalho de parto como fonte de apoio para a parturiente.

  • Reflectir sobre os eventuais sentimentos dos homens em situação de acompanhamento do parto relacionando-os  com alguma falta de informação e envolvimento por parte destes.

  • Apontar a educação para a saúde na transição para a parentalidade, como  factor de efectividade no acompanhamento das parturientes por parte dos homens.

 

Considerações Sobre as Vivências Históricas do Parto na Civilização Ocidental

Na nossa civilização , historicamente o parto foi vivenciado como um evento feminino, acompanhado por membros do grupo social da parturiente, como a mãe, parentes, vizinhas e a parteira, que a auxiliavam durante o trabalho de parto. Ainda actualmente em muitas civilizações a presença do pai no parto não é habitual, havendo uma regra estrita segundo a qual ele deve manter-se afastado do local do parto(Kitzinger,1996). Em estudos antropológicos realizados pela referida autora, verifica-se que muitas sociedades atribuem ao pai um papel definido no parto, embora ele não esteja presente fisicamente. Por exemplo segundo o Corão um pai deve oferecer preces no momento do parto e em algumas sociedades primitivas o homem concentra-se na realização de ritos mágicos para o bem estar da criança (Kitzinger,1996). O papel do pai no momento do parto, é por assim dizer pouco definido e tem sofrido alterações sobretudo em função de valores culturais de uma determinada sociedade.

Entretanto, na Europa Ocidental a partir do sec.XVIII, o parto sofreu um processo de medicalização significativa, que atingiu as massas populares dos centros urbanos em meados do sec.XX. Esse processo de medicalização do parto, implicou uma mudança de paradigma da experiência do parto, que deixou de ser sobretudo um evento feminino, doméstico e fisiológico. Uma das perdas significativas ao longo dessa mudança do espaço doméstico para o espaço institucional foi o acompanhamento familiar (Mota & Crepaldi, 2005). Deste modo, muitas mulheres, em meados do sec.XX e até há relativamente pouco tempo atrás, eram deixadas nas maternidades, entregues a si próprias e aos cuidados de equipas médicas e de enfermagem, num ambiente que lhes era completamente desconhecido e por vezes hostil, no decorrer de todo o trabalho de parto.

Mas mais recentemente e de forma progressiva, após pesquisas de vários autores que se têm debruçado sobre esta temática, foi-se verificando que havia necessidade de acompanhamento e atenção por parte de uma pessoa significativa para a grávida,  sendo frequente que essa pessoa actualmente seja o companheiro e pai do bebé.

 

A Importância do Acompanhamento da Parturiente e Sentimentos Paternos

Para Costa, Figueiredo e Pacheco(2002) há estudos que evidenciam a importância de uma pessoa significativa que proporcione apoio emocional, como um dos factores susceptíveis de influenciar a experiência de parto de uma mulher e consequentemente o seu funcionamento global como mãe e interacção com o bebé.

Klaus e Kennell (1992; cit. In Crepaldi e Mota,2005) referem que os benefícios do apoio dado à mulher em trabalho de parto, vêm sendo comprovados em pesquisas ao longo dos últimos trinta anos, as quais demonstram que parturientes que recebem apoio emocional apresentam resultados perinatais mais positivos. E ainda com base em vários estudos e em dados empíricos resultantes da nossa prática, verificamos que para as mulheres a participação do pai do bébé durante o parto significa fonte de apoio importante e que as parturientes avaliam a companhia dele de forma positiva, pois traz sensação de segurança e conforto.

Por outro lado,   a legislação vigente garante à parturiente a possibilidade de permanecer acompanhada no trabalho de parto por alguém da sua escolha, sendo na maioria das vezes o seu companheiro. Por tudo o que anteriormente referimos, sabemos que a parturiente considera a presença do seu companheiro uma importante referência emocional, mas torna-se necessário investigar o que pensam e sentem os homens sobre isso, porque o apoio emocional fornecido pelo companheiro, pode ser influenciado pela sua disponibilidade, motivação e conhecimentos acerca do parto. É necessário perceber que a integração do homem no trabalho de parto com o objectivo de confortar e acompanhar a mulher, na nossa sociedade, constituí um papel relativamente recente para ele,  o que leva a questionarmos se será claro para os homens  o que a sua companheira e a própria equipa de saúde espera deles no momento do parto.

De acordo com Davim e Menezes(2001) o parto constituí para o homem um momento de intensas emoções, possibilitando a primeira aproximação directa do pai com o filho sem intermediações da mulher, condição necessária durante a gestação onde o feto está incorporado ao esquema corporal da mãe. No entanto, Abreu e Souza(1999; cit. in Davim & Menezes, 2001) referem-nos que na nossa cultura pouco sabemos a respeito do pai, como também de seus sentimentos em relação ao ciclo gravídico-puerperal da companheira. Esta opinião vai de encontro ao que observamos na nossa prática com casais em situação de trabalho de parto, pois verifica-se que os comportamentos e sentimentos espressos  por parte dos homens que acompanham o parto de suas companheiras é muito diverso e por vezes evidencia muito desconhecimento sobre o trabalho de parto.

Num estudo levado a cabo num hospital de Londres em 2002 com cerca de 120 pais em que se tentou investigar os sentimentos dos pais durante a experiência de trabalho de parto e parto comparando os seus sentimentos nos diferentes tipos de parto, concluiu-se que de uma forma geral estes pais tiveram uma experiência positiva, embora os que acompanharam um parto normal (eutócico) tivessem expressado mais sentimento de felicidade e menos ansiedade e considerassem a experiência menos traumática do que os que acompanharam um parto distócico ou cesriana(Chan & Paterson-Brown, 2002).No entanto, gostaríamos de clarificar que estes resultados podem não traduzir a nossa realidade, uma vez que como veremos adiante isso pode estar relacionado com a preparação ou não dos pais.

Outros estudos evidenciam serem ainda muitos os homens que se sentem pouco à vontade durante o trabalho de parto da sua companheira. De acordo com uma revisão sistemática efectuada por Crepaldi e Mota(2005) os homens também podem experimentar sensação de medo, desconforto, frustração e impotência diante da dor da sua companheira, e alguns relataram ainda que o trabalho de parto foi mais dificíl e cansativo do que haviam imaginado.

Pesquisas de Chandler e Field(1997, cit. in Crepaldi Mota) mostraram que os homens sentem-se excluídos do processo de nascimento, servindo apenas como provedores de apoio moral e de conforto. E os homens mencionam ainda haver falta de informação por parte da equipa de saúde sobre o desenvolvimento do trabalho de parto, especificamente sobre o que acontece com a parturiente, bem como orientações sobre como eles deveriam proceder. Os resultados obtidos têm vindo a confirmar o entendimento de que os homens têm que lidar com processos emocionais e psicológicos com o conhecimento (ou falta dele) sobre  o parto.

Perante  a evidencia de que o apoio do companheiro/pai do bebé é extremamente importante para a parturiente e em ultima análise para a vinculação da tríade mãe/pai/recém-nascido, mas por outro lado haver a consciência de que conhecemos pouco sobre as necessidades dos homens a esse respeito, consideramos muito importante a análise conjunta destes dois aspectos. Isto significa que devemos avaliar os sentimentos e as necessidades de informação dos casais e concretamente  dos homens sobre este assunto.

 

A Educação para a Saúde no Processo de Transição Para a Parentalidade

De facto, a gravidez e o parto constituem um período na vida da mulher e do casal caracterizado por múltiplas alterações a nível físico, psico-emocional e social, que variam de pessoa para pessoa e de casal para casal,  de acordo com uma multiplicidade de factores  de carácter social e familiar, psicológicos, culturais e outros, requerendo alguma capacidade de adaptação e implicando necessidade de apoio por parte da equipa de saúde, constituindo por isso um momento crucial em termos de necessidades de educação para a saúde.

Segundo Redman(2003), idealmente a educação para a saúde pré-natal deveria começar antes da gravidez, com aulas formais que se iniciariam antes da concepção estendendo-se até cerca de três meses após o parto.

É necessário informar e educar para uma mudança de paradigma em que o casal  seja o principal protagonista da experiência de parto, realizando escolhas cada vez mais conscientes. A opção de ter ou não acompanhamento por parte do companheiro no trabalho de parto, é em primeira instância da parturiente sendo um direito da mesma, mas por outro lado, .não podemos pressionar os homens no momento do parto sem que estes estejam envolvidos ou preparados para tal.

Em países nórdicos como a Suécia as parteiras encorajam os pais a participar activamente  no que acontece antes, durante e após o nascimento (Hallgren, Kihlgren, Forslin & Norberg, 1999), sendo mesmo algo enfatizado pela legislação governamental sueca. Num estudo realizado nesse país Hallgren et al.(1999) referem-nos que os homens que estiveram  envolvidos activamente na gestação, com conhecimentos sobre preparação para o parto orientados por parteiras, sentem que isso os ajudou a experimentar novas formas de cuidado às suas companheiras e compreende-las melhor. Por isso torna-se muito importante desenvolver acções com vista  à educação para a saúde neste aspecto, avaliando as necessidades das populações e desenvolvendo programas de educação e aconselhamento.

O envolvimento paterno pode variar ao longo da gestação, de acordo com o desenvolvimento do feto, bem como as caractrísticas de cada pai. Contudo, e para Piccini, Silva, Gonçalves, , Lopes e Tudge(2004), “numa última fase os homens vivenciam a gestação como real e importante em suas vidas, conseguindo definir-se como pais (…), isso normalmente ocorre no 3º trimestre de gravidez, quando o nascimento está próximo”(p.304).

Por isso, embora não seja só importante a preparação para o nascimento de um filho no 3º trimestre de gravidez, é contudo o que se torna mais frequente na nossa realidade e o período de maior receptividade sobretudo para os homens, pelo que devemos  aproveitar esse momento de excelência para trabalhar com o casal, no processo de educação para a saúde que normalmente designamos como preparação para o parto.

A preparação para o parto é definida como um programa de sessões educacionais para mulheres grávidas e seus companheiros que encoraja a participação activa no processo de parto Bobak( 1999, cit. in Couto, 2006).

Couto(2006),  refere-nos que “a preparação para o parto com a ajuda de técnicas respiratórias e outras, ajuda a reduzir e controlar a dor e o desconforto. Origina também, ao casal , uma oportunidade para o marido/companheiro ajudar a sua mulher nessa experiência única. Por outro lado os benefícios para a saúde são imensos, indo desde partos mais breves, diminuição da administração de medicação e anestesia até utilização diminuta ou abolida de instrumentação no parto”(p.196).

Seria no entanto interessante lembrar a propósito dos programas de preparação para  o parto, que embora esteja há bastante tempo prevista a sua existência no âmbito dos serviços  públicos de saúde portugueses (Legislação de protecção à maternidade e paternidade, Lei nº 4/84 de 5 de Abril, art.º7 ponto 4), na grande maioria das vezes não estão devidamente implementados e por outro lado a legislação vigente apenas prevê a dispensa da grávida para frequência da preparação para o parto, não referindo nada sobre o direito de acompanhamento por parte do marido/companheiro.

Assim, podemos salientar que face às evidências da importância de uma pessoa significativa para a parturiente, no decurso do trabalho de parto, hoje em dia são inquestionáveis os benefícios que daí poderão advir para  a saúde da mulher, do recém-nascido e em última análise de toda a família, mas existem na prática muitas questões a ser trabalhadas, começando pela aplicação da nossa legislação em vigor em matéria de cuidados de saúde!

Gostaríamos de concluir que embora ao longo dos tempos sempre se tenha verificado a existência de fontes de apoio à parturiente, actualmente face às alterações sócio-culturais na estrutura das famílias esse apoio provém fundamentalmente dos homens (maridos/companheiros). Desta alteração no papel do homem no processo de transição para a parentalidade, resulta a necessidade de adaptações intra e interpessoais para as quais o homem e o casal necessitam de orientação e apoio por parte da equipa de saúde. É neste sentido que deveremos ser agentes dinamizadores de aprendizagens indo de encontro às motivações e necessidades dos indivíduos , famílias e comunidades através de programas de educação para a saúde pré-natal.

Um casal em que o companheiro está envolvido activamente ao longo de toda a gestação e motivado para desenvolver competências cognitivas e relacionais sobre gravidez e parto, terá maiores probabilidades de vivenciar essa experiência de forma positiva. No entanto, relativamente aos pais que ainda estão pouco envolvidos na gestação de suas companheiras ou que estando envolvidos e motivados, revelam necessidade de conhecimentos sobre o assunto, os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos e terapeutas) têm um papel crucial em matéria de educação para a saúde, tal como refere Redman(2003) “a educação para a saúde é uma prática essencial de todos os profissionais de saúde”(p. 3). Esse processo de educação pré-natal deve iniciar-se preferencialmente desde a concepção, mas se tal não for possível, deveremos aproveitar o último trimestre (como período de grande receptividade) para trabalhar com os casais neste sentido, nos denominados programas de preparação para o parto.

 

Referências bibliográficas  

  • Chan, K. K. L. & Paterson-Brown, S.(2002). How do fathers feel after accompanying their partners in labour and delivery?. Journal of Obstetrics and Gynaecology, vol22(1), 11-15.

  • Couto, G. R.(2006). Conceptualização pelas enfermeiras de preparação para o parto:  extraído de tese de doutoramento em ciências de enfermagem da Universidade do Porto. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 9(6), 62-68. Consultado em 9 de Dezembro de 2006, em http://www.eerp.usp.br/riae

  • Costa, R., Figueiredo, B. & Pacheco, A.(2002). Experiência de Parto:  Alguns factores e consequências associadas. Análise Psicológica, 2(XX), 203-217.

  • Crepaldi, M. A. & Mota, C. C. L. (2005). O pai no Parto e o Apoio Emocional. Paidéia Cadernos de psicologia e Educação, vol.15(30), 2-16.

  • Davin, R. M. B. & Menezes, R. M. P.(2001) Assistência ao parto normal no domicílio. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 9(6), 62-68.

  • Hallgren, A., Kihlgren, M., Forslin, L. & Norberg, A.(1999). Swedish father’s involvement in an experiences of childbirth preparation and childbirth. Midwifery, vol.15, Issue 1, 6-15.

  • Piccnini, C. A., Silva, M. R. , Gonçalves, R.T., Lopes, R. S. & Tudge, J.(2004), O envolvimento paterno durante a gestação. Psicologia, Reflexão e Crítica, vol.17(003), 303-314.

  • Redman, B. K. (2003). A Prática da Educação para a Saúde. Loures: Lusociência p.171

  • Kitzinger, S.(1996), Mães: Um Estudo Antropológico da Maternidade. Lisboa: Editorial Presença, 2ª ed.,  pp.107-108.