Social:
domingo, 05 agosto 2007 15:40

Envelhecimento, um Desafio para a Actual Sociedade

Escrito por  Enf. Elsa Cerqueira

Um aspecto importante que a avaliação de saúde da população idosa pode promover, é a desmistificação do conceito de velhice associado à fragilidade física e à dependência socioeconómica de terceiros.

 

Enf. Elsa Angelina Pereira Cerqueira

Enfermeira Graduada. 

 

NA ACTUALIDADE O ENVELHECIMENTO CONSTITUI-SE UM DESAFIO, PARA A ACTUAL SOCIEDADE

A idade é usualmente uma medida cronológica que determina o desenvolvimento do percurso de um determinado organismo. No ser humano pode ser mensurada em diferentes fases da vida desde o nascimento até à morte, somos criança, jovem, adulto ou idoso consoante a transição efectuada pelas referidas fases.

As sociedades industrializadas e as sociedades subdesenvolvidas têm todos um ponto em comum, o aumento da população idosa. O envelhecimento demográfico resultante do aumento da proporção de pessoas com mais de 65 anos de idade é uma realidade. A Organização Mundial de Saúde (O.M.S) em 19991, é da opinião que “O crescimento global e rápido da população de idosos é um dos maiores desafios que o mundo terá de enfrentar no próximo século.” À semelhança do que se passa no mundo, em Portugal2 este fenómeno é também visível, uma vez que nas últimas décadas foram vários os processos demográficos e sociais que marcaram claramente a especificidade do contexto actual do índice de envelhecimento (91,6%) da população portuguesa.

A velhice é um período vulnerável, fruto de toda uma vida exposta a elementos ambientais, por vezes demasiado hostis, por isso as pessoas idosas correm mais riscos de qualquer outro grupo etário. Os idosos requerem uma ampla escala de cuidados preventivos, curativos e de reabilitação. Em todo o mundo aumenta o número de idosos, nasce menos gente e aumenta o número dos que sobrevivem até à velhice, é importante que a população idosa não só viva mais tempo, mas que viva melhor e com melhores condições de saúde. Os centros culturais e outros espaços de convívio têm cada vez mais valor, tornando-se progressiva e significativamente um recurso para evitar o isolamento social, dado poderem responder às solicitações para práticas conducentes à promoção da saúde, pelo desenvolvimento e manutenção da autonomia da pessoa idosa.

Estudos efectuados referem que nos últimos anos “…passou a sobreviver-se ao que dantes se sucumbia, de tal modo que hoje é normal viver-se com uma doença ou seja, é quase normal a coexistência de doença e saúde.” (Ribeiro, 1998)3. Neste sentido, para se desenvolver um programa de intervenção comunitária em matéria de saúde, numa comunidade de pessoas idosas, torna-se imperioso avaliar a saúde dessa comunidade, ou seja, identificar o seu perfil de saúde, bem como a especificidade local em termos de alguns aspectos socioeconómicos e culturais.

Um aspecto importante que a avaliação de saúde da população idosa pode promover, é a desmistificação do conceito de velhice associado à fragilidade física e à dependência socioeconómica de terceiros.

A enfermagem centra o seu interesse na atenção no indivíduo, para manter a sua vida, a saúde e o bem-estar, integrado na comunidade onde habita com os demais. Efectivamente, “…desde que surge a vida que existe cuidados, porque é preciso, tomar conta da vida, para que ela possa permanecer.” (Colliére, 1999)4. A enfermagem teve sempre como objectivo o cuidar de pessoas, pelo que o cuidar do idoso sempre fez parte da profissão. O enfermeiro é um elemento chave com requisitos que lhe permitem desenvolver os conhecimentos, as habilidades e os comportamentos necessários em todas as actividades inerentes aos diversos Programas de Saúde em geral, particularmente da saúde do idoso, desenvolvidos pelos Serviços de Saúde. Urge ver o idoso como uma pessoa actuante e com projectos pessoais, tanto em termos culturais como socais.

Tendo em conta a importância desta fase da vida, sendo os idosos um dos grupos mais susceptíveis à doença, é essencial a promoção da saúde e a prevenção da doença, bem como a reabilitação. Aos Centro de Saúde cabe a grande tarefa de melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa, mantendo a sua independência tanto na família, como elemento inserido na comunidade.

Todos os indivíduos são sensíveis aos transtornos de saúde. Desde sempre que a população, de uma maneira ou de outra, se tem preocupado com o seu estado de saúde, com a forma de aumentar o seu nível de saúde, fazendo a sua promoção e a sua protecção. Quando as pessoas ficam doentes procuram os meios que conhecem e que estão disponíveis para tratar a doença e para se reabilitarem quando se sentem incapacitados. A saúde e o bem-estar da população, para além de serem o resultado da vivência das pessoas, dos seus valores, interesses, estilos de vida, etc., estão também interrelacionados com os aspectos socio-económicos, ambientais e Sistemas de Saúde.

Face a esta realidade, as sociedades vão tentando encontrar formas de gerir estas alterações demográficas, criando redes de suporte formais e informais de apoio aos idosos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de 1999 – 97,5% da população idosa ainda vivia em famílias clássicas e 2,5% em famílias institucionais, ou seja, ao contrário do que vulgarmente consta em termos de opinião pública a percentagem de idosos institucionalizados era relativamente reduzida; a mesma fonte revela que a procura de instituições seja consideravelmente superior à institucionalização.

Repensar os padrões tradicionais da família é uma medida importante, com o objectivo de tentar resolver, ou pelo menos minimizar, um grande número de preocupações com que nos debatemos colectivamente. De facto, actualmente tem-se vindo a assistir a transformações ao nível de certos valores de cada elemento da família, verifica-se uma certa “desintegração” da vida familiar, é cada vez menos comum a coabitação da família extensa (pais/filhos/netos). Contudo se os pais precisarem de ajuda podem contar com os filhos, esta tradição de ajuda entre pais e filhos tem uma base sólida.

A pessoa idosa perde desta forma o seu papel de transmissor transgeracional do saber, face a uma economia de mercado onde só o lucro interessa (GRANDE, Nuno 1994)5.

Fomentar medidas que voltem a colocar os idosos na cúpula dos agregados familiares, onde se entrecruzem três ou mais gerações é permitir que crianças e adolescentes encontrem referências e valores universais na fase de construção da personalidade e da modelação do carácter (GRANDE, Nuno 1994)6.

Ser-se velho era ser-se sábio; era ter-se a mais valia do tempo, que fazia do velho o conselheiro, o amigo... a memória das gerações (COSTA, M. Arminda 1999)7.

As ajudas naturais (cuidadores informais) são essenciais para a manutenção da pessoa idosa no domicílio, ou seja no seu meio natural.

Estes cuidadores informais dividem com os cuidadores formais (Lares, Centros de Saúde, Hospitais…) os cuidados ao idoso, por vezes os primeiros sentem-se sós, desmotivados, desamparados, fatigados; uma vez que dão ajuda sem peso e medida. O responsável dos cuidados formais tem um papel preponderante junto dos cuidadores informais, sem os substituir, deve dar-lhes suporte e ajuda, com o intuito de que estes continuem assumir a prestação de cuidados ao idoso, de forma altruísta, com coragem e determinação.

A possibilidade de descansarem e beneficiarem de uma relação de ajuda, deve fazer parte dos meios postos à sua disposição, pois os cuidadores informais são recursos preciosos no sistema de saúde, por isso é fundamental protegê-los.

Quando a rede informal está exausta ou deixa de poder fazer face à situação ou estado de saúde do idoso se detiora ou mesmo quando a rede informal não existe, é preciso encarar outras soluções e recorrer à rede de suporte formal. Como forma de ajudar o idoso e família, através da institucionalização temporária, em lares de dia e apoio domiciliário, que permite manter o idoso no seu ambiente natural, próximo dos seus familiares e amigos, com cuidados de qualidade. Nesta fase, surge a importância da Rede de Cuidados Continuados cuja a finalidade premente é promover a manutenção das pessoas idosas no seu meio natural, melhorar a equidade do acesso aos cuidados de qualidade, flexíveis, transitórios ou de longa duração, através de uma resposta multiprofissional a todos os níveis de cuidados de saúde e apoio social, com ganhos de vida, em anos de vida com independência.

Assim sendo e perante esta nova verdade, envelhecimento populacional, admitamos que temos que sonhar para vislumbrar outra realidade mais promissora.

Sonhos que possam ser traduzidos em acções por todos aqueles que acreditam na velhice como mais uma fase realizadora na vida. Isto não custa assim tanto. Basta que cada um comece a fazer a sua parte, porque na realidade envelhecer é também ir aprendendo outra forma de viver...

 

 

1 OMS – Envelhecimento: Enfermagem. Lisboa: 2ª Série. 15 Julho/Setembro (1999) 50

2 Natário, num estudo publicado em 1992 (pág. 47-56), com o título “Envelhecimento em Portugal uma realidade e um desafio” referia que após a análise comparativa de alguns indicadores e da pirâmide etária, previa-se que no ano 2000 a proporção da população de 65 e mais anos ultrapassasse os 14,5%. Nazaré, no prefácio in Fernandes (1997, pág. 5) aponta para o “ano de 2025 um total de 2 milhões de idosos” (20%). Recentemente, um estudo demográfico publicado em 2000 e efectuado por Barreto e tal., sobre “A situação social em Portugal, 1960-1999”, refere a existência de 15% de pessoas com mais de 65 anos de idade, por considerarmos actual é com base neste estudo que referenciaremos os valores dos diferentes indicadores mencionados na introdução deste trabalho.

3 RIBEIRO, José Luís Pais – Psicologia e Saúde. Lisboa: ISPA, 1998, pág. 3.

4 COLLIÉRE, Marie Francoise – Promover a Vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Lisboa: LIDEL, 1999, pág. 27.

5 Cf. GRANDE, Nuno - Linhas mestras par uma política nacional de terceira idade. Rev. Portuguesa de Medicina Geriátrica. 68 (1994) 8.

6 Cf. GRANDE, Nuno - Linhas mestras par uma política nacional de terceira idade. Rev. Portuguesa de Medicina Geriátrica. 68 (1994), pág. 9.

7 Cf. COSTA, M. Arminda M. – Questões demográficas: repercussões nos cuidados de saúde e na formação dos enfermeiros. In O idoso: problemas e realidades. Coimbra: Formasau, (1999) 10.

  

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