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domingo, 01 outubro 2006 01:29

Alimentação num doente com paralisia cerebral

Escrito por  Ana Rita Santos

O tratamento dos sintomas apresentados pela pessoa com paralisia cerebral, deve ser realizado precocemente quando há somente suspeitas de PC. Muitas vezes preventivamente já podem ser tratados antes de aparecer, pois os sintomas evoluem gradualmente.

 

Ana Rita Santos

Curso de Licenciatura em Terapia da Fala

Alcoitão

 

 

A Paralisia Cerebral é uma perturbação do controlo neuro-muscular, da postura e do equilíbrio, resultante de uma lesão estática, que afecta o cérebro em período de desenvolvimento, desde a concepção até à primeira infância. Esta perturbação engloba um grupo de situações de desvantagem ou disfunção variadas no que diz respeito aos aspectos motores e sensoriais.  

Os distúrbios da comunicação são variáveis de acordo com os graus de comprometimento encefálico, aparecendo em função das alterações provenientes de mímica facial, reflexos orais, alimentação, respiração, articulação, fonação, linguagem, voz e audição.

Devido a tantas alterações verifica-se que é indispensável a intervenção do Terapeuta da Fala em casos de Paralisia Cerebral. Este profissional tem como função, entre outras, avaliar e intervir a nível da alimentação. Uma vez que, muitos indivíduos com paralisia cerebral apresentam uma alteração da motricidade oro-facial

Ao longo do artigo será abordada a definição de paralisia cerebral e as diferentes técnicas de intervenção do terapeuta da fala, no que respeita à alimentação.

 

Paralisia Cerebral

A paralisia cerebral (PC) é um transtorno persistente do movimento e da postura, causado por uma lesão não evolutiva do sistema nervoso central (SNC), durante o período precoce do desenvolvimento cerebral (Eicher e Batshaw, 1993, citado por Argüelles, 2001).

Mc Carthy (1987, citado por Sakata, 1999) alega que apesar da lesão não ser progressiva, as manifestações clínicas podem mudar com o decorrer do tempo, devido à plasticidade do cérebro em desenvolvimento.

A incidência de PC situa-se à volta de 2 por 1000 recém-nascidos vivos. Nos últimos anos, observou-se um ligeiro aumento de incidência, bem como uma mudança na frequência dos diversos subtipos de PC. Este aumento atribui-se à maior sobrevivência de recém-nascidos com peso muito baixo ao nascer (Hagberg e Cols, 1989, citado por Argüelles, 2001). 

As causas de PC são múltiplas e ocorrem concomitantemente, sendo difícil determinar a etiologia específica e, portanto, conseguir uma prevenção eficaz. As diversas causas podem ser causas pré-natais, peri-natais ou pós-natais. As causas pré-natais englobam factores hereditários (geneticamente transmitidos) e factores adquiridos, como infecções intra-uterinas, atrasos no crescimento intra-uterino,intoxicações, exposição a radiações, anomalias genéticas, cardiopatias congénitas, prematuridade, alterações metabólicas. As causas peri-natais contêm um conjunto de alterações devidas a hipóxia ou anoxia, infecção do SNC, hemorragia intracraniana, incompatibilidade sanguínea fetomaterna (causadora de icterícia no recém-nascido), obstrução respiratória, uso indevido de analgésicos ou anestésicos. Por fim, as causas pós-natais englobam tumores cerebrais, traumatismos crânio-encefálicos, estados convulsivos, desidratação grave, paragem cardio-respiratória, ingestão de substâncias tóxicas, alterações metabólicas.

É importante ressaltar, que as principais causas de paralisia cerebral são a prematuridade e a anoxia peri-natal, seguida de infecções como a meningite ou a encefalite (Pinho, 1999). 

Na PC podem-se considerar as seguintes características gerais:

    • perturbação global da postura e do movimento;

    • alterações das reacções de equilíbrio e extensão protectiva;

    • padrões de movimentos disfuncionais;

    • persistência de actividade reflexa;

    • défices sensoriais (visão, audição e alterações da sensibilidade);

    • perturbações da comunicação, linguagem e fala;

    • problemas perceptivos;

    • alterações cognitivas;

    • alterações emocionais e de comportamento.

 

Há cinco tipos clínicos de crianças com PC, que são: espástico, atetósico, distónico, atáxico e hipotónico.

A PC espástica é a mais frequente e é causada por uma lesão da via piramidal. As crianças com este tipo clínico, geralmente, apresentam tetraparésia, hemiparésia ou diplegia. Manifesta-se por hipertonia muscular e reflexos exaltados, não se verificando variações de tónus. Há desenvolvimento de deformidades e contracturas, devidas à persistência de padrões desajustados, estáticos e dinâmicos (Argüelles, 2001 & Pinho, 1999). Há, ainda, défices sensoriais associados (normalmente visuais) e disfunção comunicativa grave, atraso do desenvolvimento da linguagem, disartria e anartria. Estas crianças, normalmente, são passivas e fechadas, não são agressivas, mas também não demonstram iniciativa. Por norma, sentem-se inseguras e com medo, tendo dificuldade de adaptação à mudança e um défice de interacção e socialização.

No tipo atetósico há comprometimento do sistema extrapiramidal (núcleos da base). As crianças portadoras deste tipo apresentam tetraparésia ou hemiparésia, com mudanças de tónus imprevisíveis, tendo flutuções entre o normal e o baixo, mantendo-se normalmente baixo (Sakata, 1999).

Estas crianças raramente desenvolvem contracturas ou deformidades, havendo um excesso de mobilidade articular. Assim, verifica-se uma deficiente coordenação e graduação de movimentos, com dificuldade em manter posturas. Existem défices sensoriais associados (a surdez é o mais frequente), dificuldades na sustentação da atenção e atraso do desenvolvimento da linguagem, disartria, anartria. Na PC atetósica, as crianças são instáveis e com imaturidade emocional, sendo extrovertidos com variações súbitas de humor. São destemidos, mas inseguros, adaptando-se melhor às mudanças. Estas são mais agressivas e audazes do que as crianças espásticas.

Na PC distónica, o tónus tem flutuações entre alto e baixo, com falta de cocontracção e excesso de mobilidade articular por deficiente fixação proximal. Portanto, há uma excessiva extensão ou flexão. As deformidades que ocorrem frequentemente são: luxação das ancas, contracturas, escoliose e cifose. Estas crianças também têm défices sensoriais associados, atraso do desenvolvimento da linguagem, anartria.

A criança atáxica apresenta uma lesão do cerebelo ou das vias de conexão, tendo tetraparésia. A clínica mais evidente é a descoordenação dos movimentos, transtornos do equilíbrio e hipotonia, variando o tónus entre o baixo e o normal (Argüelles, 2001). Para além destas situações, verifica-se, ainda, tremor intensional, dismetria, nistagmo.

Os casos de hipotonia, com o crescimento, evoluem para quadros de atetose e raramene espasticidade. As crianças hipotónicas apresentam tónus flácido, pernas em flexão. As crianças atáxicas e hipotónicas são simpáticas, parecem confortáveis em qualquer posição e raramente choram. 

Tabith (1995, citado por Pinho, 1999) refere que a paralisia cerebral, de acordo com o grau de incapacidade, pode ser classificada como leve, moderada e severa. Assim, há quadros tão graves que impedem a autonomia do paciente, até outros, muito leves, nos quais o défice limita-se a uma inaptidão motora (Argüelles, 2001). 

Há dificuldade na avaliação da PC, sendo necessário um apoio terapêutico especializado, ou seja, é necessário a participação de uma equipa transdisciplinar. Dessa equipa participam os pais e outros membros da família, médicos e enfermeiros, terapeutas da fala, fisipterapeutas e terapeutas ocupacionais, professores e educadores, picólogos, técnicos de serviço social, radiologistas, dietistas e ortoprotésicos.

As áreas de avaliação na PC passam pela avaliação do comportamento adaptativo, audição e visão, capacidade comunicativa (linguagem e fala), motricidade global, morticidade oral e respiratória e, por fim, alimentação. 

É, frequentemente, muito difícil estabelecer um diagnóstico de paralisia cereral antes do final do quarto mês e, mesmo então, pode ser impossível dizer que tipo de paralisia a criança pode desenvolver e qual será o resultado final em termos de distribuição e gravidade da patologia (Sakata, 1999). Entre os quatro e os seis meses já começa a ser possível diagnosticar a paralisia cerebral.

Meyerhof e Prado (1998, citado por Sakata, 1999) afirmam que a época para iniciar o tratamento é essencial, para que o bebé tenha mais força para superar as suas deficiências, além de reforçar uma auto-imagem positiva desde o início da sua vida extra-uterina, e motivá-la para que possa recuperar ou atingir uma melhor funcionalidade. Para superar e conviver com as suas dificuldade, as crianças com PC usam movimentos compensatórios. Por exemplo, como refere Argüelles (2001), se há uma certa tendência à protrusão, a criança, quando tenta ingerir alimentos, põe a língua para fora, cada vez mais.

Portanto, os pontos essenciais no despiste precoce da paralisia cerebral são:

    • avaliação da motricidade oral e respiratória;

    • reacção à estimulação oral/digital;

    • observação da interacção mãe/criança;

    • avaliação da alimentação, posicionamento, e comportamento motor;

    • fonação e comunicação pré-verbal.

 

O tratamento dos sintomas apresentados pela pessoa com paralisia cerebral, deve ser realizado precocemente quando há somente suspeitas de PC. Muitas vezes preventivamente já podem ser tratados antes de aparecer, pois os sintomas evoluem gradualmente (Pinho, 1999).

Para atendimento da sintomatologia da paralisia cerebral é muito importante a acção integrada de uma série de profissionais, onde seja essencial que exista uma relação estreita entre eles, para assegurar que o tratamento global de cada criança seja coordenado e que se alcance o máximo de benefício. Isto, só pode ser alcançado se todos os que estão interessados no tratamento da criança se sintam como membros de uma equipa, cada um contribuindo para o trabalho dos outros e para o bem-estar da criança como um todo (Bobath & Finnie). 

As mesmas autoras afirmam que os terapeutas se preocupam com dois problemas principais no tratamento da PC, cada um intimamente relacionado com o outro. São eles:

  • A postura e os padrões de movimentos anormais das crianças associados a graus e distribuição do tónus anormais.

    • Neste princípio os terapeutas preocupam-se em melhorar a coordenação da criança e, para que isso seja conseguido, os padrões anormais da criança têm que ser contrariados para melhorar o tónus postural. Caso contrário, o movimento e a fala permanecerão anormais e muitas das actividade mais finas do dia-a-dia serão impossíveis de realizar.

    • Assim, deve haver uma inibição dos reflexos anormais, responsáveis pelo padrão de hipertonia. Ou, a facilitação das reacções normais e altamente integradas de rectificação e equilíbrio ao longo do seu desenvolvimento, com progressão para actividades especializadas (Semans, 1967 & Maning, 1972, 1976, citados por Sakata, 1999).

  • O desenvolvimento atrasado, interrompido ou perturbado da criança. O desenvolvimento duma criança com paralisia cerebral ou está atrasado ou parou em determinada fase ou fases. Contudo, uma criança cujo envolvimento é menos grave nalgumas partes do seu corpo alcançará nalgumas actividades uma fase de desenvolvimento mais avançada, tendo o seu desenvolvimento lacunas.

Para a Terapia da Fala, Marujo (1998, citado por Sakata, 1999) ressalta a importância em desenvolver uma actividade muscular que proporciona à criança com PC o funcionamento da actividade muscular oro-motora, respiratória-fonatória, e comunicação, assim como, enfatizam modificações na ingestão nutricional. E para melhor funcionamento destas actividades, é necessário uma boa base de alinhamento corporal. Esta base é caracterizada por alongamento do pescoço, com flexão neutra da cabeça, uma depressão estável da cintura escapular, alongamento simétrico do tronco, uma posição neutra da pélvis simétrica e estável, uma estabilidade de quadril com adução e rotação meutra e, finalmente,uma posição simétrica e estável dos pés.

Esta progressão dá-lhe a possibilidade de explorar o mundo que a rodeia, de experimentar as relações espaciais do seu corpo com as coisas à sua volta, ajudando-a a desenvolver a percepção. O uso das mãos para brincar com o seu próprio corpo, cara e boca, dá-lhe a percepção do seu próprio corpo e, ao mesmo tempo, prepara-a para a independência na alimentação, no vestir e despir, no lavar-se. O uso das mãos para brincar com os seu lábios e língua, enquanto vocaliza e palra, prepara-a para a fala (Bobath & Finnie). 

Se, eventualmente, o posicionamento adequado com um bom alinhamento do corpo não é alcançado, o controlo motor funcional fino durante a alimentação pode não ser o esperado (Sakata, 1999).

 

Alimentação

Desde o nascimento, que para a maioria das crianças com paralisia cerebral, a alimentação é dos problemas mais notados (Hellen Mueller, citado por Pinho, 1999).

Seguidamente, serão destacados os estadios de desenvolvimento da alimentação de uma criança normal em comparação aos de uma criança com PC.

Segundo Pinho (1999), o bebé toma o alimento, nos primeiros meses, através do reflexo de sucção-deglutição. Com este reflexo, o alimento pode tornar-se insuficiente em bebés com PC, sendo as refeições difíceis tanto para o bebé como para a mãe, visto que o bebé se torna impaciente, tenso e chora, ou pode ficar com sonolência durante a alimentação.

Após as primeiras semanas, os bebés já conseguem sugar o líquido de uma colher e, após os seis meses, quando o bebé se começa a sentar, está pronto para aprender a tomar líquido ou alimento de uma colher com os lábios, fazendo a deglutição. A criança com PC, nesta fase, também, parece estar a sugar pelos movimentos de abertura e fechamento da boca, mas as suas tentativas são ineficazes (Pinho, 1999).

A mesma autora refere que o bebé normal começa a mascar com seis ou sete meses, estando a preparar-se para morder e mastigar alimentos sólidos; engasga-se com menos frequência e a baba surge somente durante o período de erupção dos dentes; isto tudo, significa que o controlo oral se está a desenvolver. A criança com paralisia cerebral, muitas vezes, não é capaz de mastigar e, em vez de mastigar, faz movimentos para a frente com a língua, empurrando o alimento de volta para fora da boca ou colocando-o no céu da boca; o alimento pode ser amassado, mas não é mastigado e quando este alcança a parte posterior da boca, não está controlado, então, a criança acaba por se engasgar ou é desencadeado o reflexo de vómito.

Depois de ter aprendido a receber alimento da colher, na posição sentada e ter realizado esta actividade durante um mês, o bebé estará pronto para beber líquidos de uma chávena ou de um copo. Nos estadios iniciais pode haver alguma incoordenação, resultando na saída do líquido pelos lados da boca. A criança com PC não é capaz de manter os lábios unidos ao copo ou à chávena, a sua língua provavelmente fará protrusão por cima ou por baixo do copo (Pinho, 1999).

O tipo de sucção usado quando se bebe por uma palha, segundo Pinho (1999), requer uma coordenação mais fina dos lábios, do que o necessário para o reflexo de sugar usado pelo bebé. Beber pela palha é uma tarefa que raramente uma criança com paralisia cerebral consegue realizar; em vez de segurar a palha com os lábios, ela morde-a ou mantém-na levantada para que o líquido escorra passivamente dentro dele.

Os problemas mais comuns que tornam a alimentação da criança com PC tão difícil são:

    • a protrusão de língua;

    • o reflexo de morder prolongado e exagerado;

    • reflexo de vómito normalmente forte;

    • hipersensibilidade táctil na área da boca;

    • baba.

 

Intervenção do Terapeuta da Fala a este nível

Uma vez que a base de controlo corporal tenha sido conseguida, usando-se manuseamento durante o tratamento e o funcionamento adequado durante a alimentação, a atenção pode ser voltada directamente na apresentação de estímulos para a modificação do funcionamento oro-motor mais específico (Sakata, 1999). 

Para começar o treino da alimentação deve-se ter em conta não só a postura mas, também, o controlo oral. Para que este seja eficaz deve ser firme, o que não significa que seja exercida força. Verifica-se que, através desta técnica, há um controlo da cabeça, do maxilar, dos lábios e da língua, aumentando o controlo postural e respiratório. O controlo oral pode ser feito de frente ou de lado para a criança, o que possibilita as interacções. Assim sendo, esta técnica normaliza a motricidade e o tónus orofacial, facilitando a abertura e o encerramento da boca, e diminui os reflexos patológicos (sucção, deglutição, morder, vómito e quatro pontos cardeais).

O objectivo do controlo oral é a facilitação do funcionamento “normalizado” dos órgãos que intervêm na alimentação e é realizado com três dedos: o indicador, polegar e dedo médio.

Um dos dedos é colocado debaixo do lábio inferior, que permite controlar a abertura e o encerramento da boca. O segundo dedo é colocado debaixo e atrás do queixo, estabilizando a língua, o que facilita a deglutição e funciona como contra resposta à pressão exercida pela colher. O último dedo, que é colocado na articulação temporo-mandibular, permite corrigir um possível desvio. 
 

 

Fig. 1 - Exemplo da posição dos dedos durante o controlo oral 
 
 
 
 
 
 

Treino de alimentação pelo biberon 
 

Possibilita a (o):

    • normalização da sensibilidade facial e intra-oral;

    • facilita a sucção e deglutição, através do pôr e tirar a tetina de dentro da boca, usando controlo oral sempre que necessário para o encerramento labial;

    • inibição do impulso da língua, fazendo pressão com a tetina na zona média da língua;

    • posicionamento adequado, cm períodos de descanso e interacção verbal.

 

Mudar o tipo de tetina usado no biberon poderá ajudar a criança a apresentar um padrão de sucção mais eficiente. Se o furo da tetina é aumentado para que o liquido flua rapidamente, uma sucção anormal e uma deglutição anormal poderão aparecer. Uma tetina curta poderá não oferecer uma superfície que favoreça o encerramento necessário para que a sucção seja possível. Deve-se usar diversos tipos de tetinas para se observar, se ao mudar o tamanho, formato ou textura irão estimular movimentos orais mais activos, se a sucção continua a ser pobre ou a aparecer a “mordida tónica” (Sakata, 1999).

 

Treino de alimentação pela colher 

Deve ser executado segundo os seguintes pontos:

    • a criança deve estar bem posicionada, com o tronco direito e simétrico, cabeça com ligeira flexão e deve ser feito o controlo oral;

    • partir com a colher de um plano inferior em relação à criança, evitando que ela se assuste e desencadeie hiperextensão da cabeça;

    • através do controlo oral, dosear a abertura da boca;

    • a colher entra e sai da boca sempre na horizontal, exercendo pressão na língua da criança;

    • quando a colher é retirada da boca, ela não deve tocar nos dentes, dando-se tempo necessário para que a criança responda à pressão exercida na língua (trazendo os lábios para a frente);

    • fazer o encerramento da boca com o controlo oral, confirmando que a língua fica no seu interior.

 

Deve-se colocar pouca comida na colher e, inicialmente, na zona mais anterior para facilitar o movimento do lábio superior para retirar a comida.

É importante escolher uma colher que caiba dentro da boca da criança, sem encostar nas gengivas ou nos dentes. A colher deverá ser rasa o suficiente para que o lábio seja usado para remover a comida da colher. Colheres de plástico ou com uma camada de plástico não devem ser usadas quando aparecem “mordidas tónicas” (Sakata, 1999).

 

Treino de mastigação

A estimulação da mastigação pode ser feita antes da erupção dentária com a utilização de pequenos pedaços de alimentos semi-sólidos, que podem ser colocados entre as gengivas da criança. Assim, estarão a ser propiciados alguns factores, como: força na musculatura da mastigação, instauração de movimentos verticais e laterais da mandíbula, e lateralização da língua. Quando o controlo dos órgãos fonoarticulatórios é muito precário; o terapeuta usa algumas manobras facilitadoras para a retirada do alimento da colher e também fornece algumas orientações à mãe da criança. As posturas usadas durante a alimentação serão orientadas de acordo com a idade da criança e com o grau de comprometimento (Pinho, 1999). 

Para a sua execução do treino de mastigação tem-se em conta os seguintes passos:

    • O posicionamento neste treino deve ser simétrico com controlo da cabeça em ligeira flexão e controlo oral, adequado a cada caso;

    • introdução de um pedaço de alimento, deslizando ao longo da gengiva inferior, do meio para trás. Este trabalho é sempre bilateral;

    • no espaço a seguir ao último dente faz-se pressão, introduzindo aí o alimento, para estimular a mastigação. O alimento não deve ir muito para trás porque pode desencadear reflexo de vómito.

 
 

Conforme o estadio alimentar de cada criança, pode-se avançar com outro tipo de alimento, fazendo com que se desenvolvam movimentos dissociados dos lábios e da língua 

 

Treino de beber pelo copo 

 

Deve-se:

    • posicionar a criança de forma simétrica com controlo da cabeça (em ligeira flexão) e controlo oral, adequado a cada caso;

    • colocar o bordo do copo sobre o lábio inferior, flexionando a cabeça para facilitar a protrusão do lábio superior;

    • inclinar o copo (que deve ter bastante líquido para não ser necessária uma grande inclinação), e o líquido ao tocar o lábio superior, estimula-o;

    • esperar para que a deglutição se processe sem nunca retirar o copo do lábio inferior, graduando o ritmo de cada inclinação do copo;

    • ajudar a criança a manter o ritmo entra a deglutição e a entrada de líquido;

    • manter o controlo oral;

    • utilizar de início líquidos mais espessos evitando bebidas ácidas, visto que estimulam a produção de saliva e toda actividade patológica.

 

Quando introduzimos líquido com o copo, é melhor que este seja de plástico e flexível, com uma abertura pequena, pois não haverá interferência no encerramento labial. A parte de cima do copo pode ser cortada para que o líquido seja directamente direccionado para a boca, sem que a criança precise levar a cabeça para trás em hiperextensão (Sakata, 1999). 

 

Treino de beber pela palhinha 

 

Para a sua execução tem-se em conta os seguintes passos:

    • posicionar a criança de forma simétrica com controlo da cabeça (em ligeira flexão) e controlo oral, adequado a cada caso;

    • com uma palha de grossura e tamanho adequada a cada criança mergulha-se no líquido, colocando o dedo na outra extremidade, fazendo com que ela fique com líquido e introduz-se na boca da criança, actuando como se fosse uma pipeta ou um conta-gotas;

    • a palhinha deve ser introduzida na vertical lateralmente entre os lábios, por forma a evitar ser mordida;

    • os lábios fazem protrusão, esboçando tentativas de aspiração.

 

Um aspecto importante, ao qual se deve ter muita atenção, é a higiene oral da criança portadora de paralisia cerebral. A higiene oral pode ser feita em pé ou sentado, conforme o grau de independência da criança. Deve continuar a ser uma postura simétrica, em que pode ser necessário controlo de cabeça e controlo oral.

O material é o usado normalmente, em que a pasta de dentes deve ser de sabor normal (sem sabor a frutos); a escova pode ser manual ou eléctrica, suave ou média; e se a criança não tem dentição pode usar-se uma compressa esterilizada.

O procedimento deverá ser o seguinte:

    • para as crianças sem dentição, deve-se limpar as gengivas e retirar os resíduos alimentares com a compressa. Esta pode ser embebida em tantum verde. Os movimentos na gengiva com a compressa devem ser rotativos, no sentido do relógio, do meio para trás, nas gengivas internas e externas;

    • nas crianças com dentição, os movimentos executados com a escova nos dentes, interior e exteriormente, são basicamente os mesmos que se fazem com a compressão;

    • a pressão é variável conforme a criança (+ sensibilidade + pressão / – sensibilidade  – pressão) e com rapidez.

 

As aquisições funcionais, que aparecem no decurso da educação terapêutica e da reeducação da alimentação, sugerem a possibilidade de pronunciar fonemas, que o terapeuta da fala estimulará e aperfeiçoará com a ajuda dos familiares da criança, desde o momento em que manifeste interesse pela linguagem (Argüelles, 2001).

 

Conclusões

A paralisia cerebral é uma perturbação do controlo neuro-muscular, da postura e do equilíbrio, resultante de uma lesão estática, que afecta o cérebro em período de desenvolvimento pré, peri e pós-natal. 

Esta perturbação engloba um grupo de situações de desvantagem ou disfunção neuro-motora, não progressiva, alterável, secundária a uma lesão cerebral e ocorre em estadios precoces do desenvolvimento. Assim, os prejuízos causados aos indivíduos portadores de paralisia cerebral dizem respeito, fundamentalmente, às perturbações do movimento ou da postura, podendo estas apresentar-se em maior ou menor grau, variando de pessoa para pessoa (Pinho, 1999). 

Há uma enorme diversidade clínica e etiológica, mas com aspectos comuns relativamente à habilitação e desenvolvimento socio-familiar. As causas da paralisia cerebral podem ser pré, peri ou pós-natais, tendo em conta a fase em que surge a perturbação.

Para um tratamento eficaz dos comprometimentos consequentes da paralisia cerebral é, geralmente, necessário o trabalho integrado de uma equipa de profissionais e de um trabalho conjunto com a família. Para isso, não deverá haver limitações de esforços de nenhuma das partes.

Os objectivos do tratamento e a duração do mesmo variam, em função das necessidades de cada criança (Argüelles, 2001).

A Alimentação é o processo pelo qual os organismos obtêm e assimilam alimentos ou nutrientes para as suas funções vitais, incluindo o crescimento, movimento, reprodução.

Esta é uma das áreas de intervenção do terapeuta da fala em crianças com paralisia cerebral. Para que a intervenção seja eficaz recorre-se a diversos tipos de treino de alimentação, como por exemplo, treino pelo biberon, pela colher, pelo copo e pela palhinha, e, ainda, treino da mastigação. 

O que se pretende do tratamento da criança com paralisia cerebral é procurar que ela consiga integrar-se na sociedade (Argüelles, 2001).

 

 

Bibliografia

Argüelles, P. P. (2001). Paralisia Cerebral. In Argüelles, P. P., Basil, C., Métayer M. Le & Puyuelo M. (Eds.), A Fonoaudiologia na Paralisia Cerebral: Diagnóstico e Tratamento (pp. 1-15). Brasil: Livraria Santos Editora.

Lewalle, P., Manuila, A., Manuila, L. & Nicoulin, M. (2004). Dicionário Médico (3ª ed.). Portugal: Climepsi Editores.

Pinho, G. K O. (1999). Paralisia cerebral: alterações e atuação fonoaudiológicas. Curitiba: CEFAC.

Sakata, S. H. (1999). Disfagia em crianas com paralisia cerebral. São Paulo: CEFAC.

http://pt.wikipedia.org

 

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