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terça, 22 outubro 2013 13:54

EPAL encontra medicamentos e cafeína na água de Lisboa

 

A EPAL encontrou medicamentos, como antibióticos e anti-inflamatórios, e cafeína na água que abastece Lisboa.

As quantidades são residuais e estão longe de constituir um perigo para a saúde. Mas a empresa começou a testar regularmente as nove substâncias detectadas. O objectivo é controlar o efeito que os químicos que consumimos podem ter na nossa saúde quando vão parar à água que bebemos
No final dos anos 90, os cientistas americanos fizeram uma descoberta inquietante. As solhas macho que nadavam na Baía de Seattle tinham uma proteína que só costumava estar presente nas fêmeas com ovas. Um estudo veio a concluir que esta metaformose se devia à presença na água de hormonas femininas. A culpa era dos resíduos deixados pelas pílulas contraceptivas.

Estes peixes efeminados foram a primeira prova de que os resíduos de medicamentos, hormonas e produtos de higiene pessoal na água podiam ter efeitos claros na saúde de animais e humanos. E desde essa altura que os cientistas tentam perceber que vestígios ficam na água que bebemos de todos os produtos químicos que produzimos e consumimos.

Se é certo que, quer através de descargas quer através de excreções de animais e humanos todos estes produtos acabam nas ETAR (Estações de Tratamento de Águas Residuais), os investigadores querem perceber se os químicos vão mesmo parar à água para consumo.

Em Portugal, a EPAL fez análises para perceber em que níveis de concentração se encontravam os resíduos dos 31 fármacos mais vendidos. As amostras foram recolhidas entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 e o objectivo era analisar até que ponto os antibióticos, anti-inflamatórios, anti-depresssivos e anti-convulsionantes que consumimos vão parar à água que é distribuída pela rede da empresa que abastece 2,9 milhões de habitantes em 34 concelhos da Grande Lisboa.

De todas as substâncias testadas, foram encontradas nove, das quais só cinco estão em concentrações possíveis de quantificar pelos métodos de análise existente. “Encontrámos cafeína, antibióticos e anti-convulsionantes”, explica Maria João Benoliel, responsável pelo laboratório da EPAL, que olha para os resultados com alívio. “Estamos a falar de nanogramas por litro. São quantidades muito pequenas, todas abaixo dos níveis encontrados, por exemplo, em França ou nos Estados Unidos, com excepção para a cafeína que está em valores semelhantes”. Nenhuma das amostras analisadas pela EPAL continha vestígios de hormonas.

A confiança de Maria João Beneloiel na qualidade da água que sai das torneiras abastecidas pela EPAL é muita, mas isso não faz a responsável pelo laboratório ignorar a presença destes compostos. “Os resultados deixaram-nos muito descansados. Mas integrámos na nossa monitorização habitual análises a estes nove compostos que detectámos neste estudo”.

A análise da evolução da presença destes químicos na água vai permitir perceber alterações de concentração e cruzar dados com outro tipo de investigações científicas para perceber que papel podem ter estes resíduos de produtos que ficam na água no desenvolvimento de algumas doenças. Os cientistas querem entender, por exemplo, se o aumento do cancro dos testículos e a diminuição da qualidade do esperma em alguns países pode estar relacionado com a poluição da água com resíduos de produtos como pílulas contraceptivas, shampoos, maquilhagem e produtos de limpeza de pele.

O que fica por saber é se, por exemplo, é possível detectar resquícios de drogas ilícitas nas água da EPAL. “Não fizemos esse estudo. E não conheço análises desse tipo na Europa”, admite a directora de Controlo de Qualidade da Água da empresa que abastece Lisboa.

Em relação à água da EPAL, precaução é a palavra de ordem. “As nossas captações, em Castelo de Bode e Valada (Tejo), estão em locais muito pouco industrializados, onde a contaminação é quase nenhuma. Mas estamos muito atentos à qualidade”, sublinha Maria João Benoliel. A prova disso faz-se todos os dias. “Fazemos mais de 400 mil análises a cerca de 10 mil amostras de água por ano. Temos uma preocupação que vai além do que é exigido pelas normas nacionais e comunitárias. Das cerca de 400 substâncias testadas pela empresa só cerca de 100 é obrigatório por lei testar”.

No Laboratório Central da EPAL, nos Olivais, em Lisboa, amostras trazidas das captações em garrafas de um litro de água são, através de métodos de cromatografia, reduzidas a pequenos tubos de ensaio. “O objectivo é aumentar os níveis de concentração para detectar substâncias que de outro modo seria impossível encontrar”, explica a responsável da EPAL, que garante ter ao seu dispor tecnologia ao nível da dos melhores laboratórios do mundo.

“Até hoje, a única substância que encontrámos acima dos valores limite na água da EPAL foi o ferro, que não é prejudicial à saúde”, garante Maria João Benoliel, explicando que o único motivo pelo qual a empresa controla esta substância não tem que ver com os efeitos nos humanos, mas sim na roupa. “Controlamos, porque deixa a água amarela e isso estraga a roupa”.

Resolver o problema pode ser tão simples como deixar a água correr, quando se chega de férias e das torneiras sai um líquido ferrugento. “Normalmente, o ferro acumula-se quando a água fica parada nos canos”.

A engenheira química ainda se lembra da vez em que os resultados das análises do ferro atingiram o pico mais elevado de sempre em Lisboa. “Foi numa véspera de Natal e ninguém entendia porque é que a água na zona do Marquês de Pombal tinha tanto ferro”. As equipas de análise mobilizaram-se e encontraram a resposta para o enigma. “Tinha havido umas obras e alguém que fechou uma válvula esqueceu-se de abrir outra para fazer a água circular. O facto de ter ficado parada durante dias nos canos fez com que acumulasse ferro”.

Mesmo que o problema não pareça grave, a EPAL leva sempre a sério os sinais de alerta. “Quando recebemos uma queixa, através das linhas de apoio ao cliente accionamos sempre um procedimento de verificação”, garante Maria João Benoliel, que confessa ter de lidar, por vezes, com situações caricatas. “Já aconteceu ligarem a dizer que acham que estão a ser envenenados com arsénio, através da água da rede. E uma senhora uma vez ligou para cá a queixar-se de que a água sabia a mercúrio, seja lá o que for esse sabor”. Em todas as situações, a EPAL envia técnicos ao local para recolher amostras e testar a água. “No final, contactamos sempre os consumidores para lhes explicar os resultados das análises”.

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=88617

 

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