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terça, 22 outubro 2013 11:44

Lares de idosos devem ser adaptados para pessoas com demências

Em Portugal ainda não há estudos, mas estima-se que entre 120 a 150 mil pessoas sofram de algum tipo de demência. Plano Nacional deve estar concluído no primeiro trimestre do próximo ano

Ajudar a articular e a adaptar as instituições que têm capacidade para receber pessoas com demências, como por exemplo lares de idosos e centros de dia, criar o estatuto do cuidador informal e definir o que são boas práticas nesta área são alguns dos objectivos do Plano Nacional de Intervenção nas Perturbações Demenciais. O plano tem avançado com atrasos, mas deverá estar concluído no primeiro trimestre de 2014, adiantou ao PÚBLICO o presidente do Conselho Nacional para a Saúde Mental, António Leuschner.

Face ao acelerado envelhecimento da população portuguesa, desde há anos que se fala na necessidade de definir um plano nacional para as demências, à semelhança dos programas de intervenção que outros países desenvolveram e estão a aplicar no terreno, como a França e o Reino Unido. O PSD e o CDS apresentaram mesmo, em 2010, no Parlamento, projectos de resolução que apontavam neste sentido, mas nada saiu do papel.

Depois de sucessivos atrasos, decidiu-se avançar, primeiro, com estudos para a identificação das necessidades e da prevalência das perturbações demenciais. Há neste momento três em curso. Em Portugal não existem dados epidemiológicos mas apenas estimativas baseadas em extrapolações de estatísticas de outros países.

Quanto ao plano nacional que irá beneficiar entre 120 e 150 mil pessoas afectadas por um qualquer tipo de demência - além dos seus cuidadores e familiares -, esse deverá estar pronto no primeiro trimestre do próximo ano, antecipou António Leuschner, à margem da comemoração dos 25 da associação Alzheimer Portugal, na semana passada.

"Será uma espécie de carta de marear. Temos de ter capacidade de enquadrar e coordenar o que existe no terreno, não é necessário inventar grandes coisas", acredita o psiquiatra. Face à "quase inexistente" resposta de estruturas criadas de raiz no terreno para as pessoas com demências, o que se vai fazer não é propor a criação de uma nova rede, mas sim o aproveitamento e a adaptação de espaços já disponíveis, como lares de idosos e centros de dia, explica. "Mas temos de garantir a qualidade dos cuidados, monitorizar a qualidade mesmo do lar mais recôndito", defende António Leuschner, salientando que o diagnóstico precoce e o apoio aos cuidadores informais dos doentes são também fundamentais.

Além de permitir "articular com iniciativas congéneres" de outros países da União Europeia e desenvolver parcerias e estudos mais alargados, o plano contemplará a criação do estatuto do cuidador informal das pessoas com perturbações demenciais e a criação do quadro jurídico dos direitos das pessoas com incapacidade, acrescentou o coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro Carvalho.

Para Filipa Gomes, da Alzheimer Portugal, há muito trabalho a desenvolver. "Os lares não estão adaptados para pessoas com demências e muito menos para jovens e a falta de formação e de apoio dos recursos humanos no terreno é dramática", lamentou. Ainda é muito frequente recorrer-se à "contenção física" (amarrar dos doentes), exemplificou.

Com base em estatísticas internacionais, estima-se que mais de 6% da população com idade superior a 65 anos tenha algum tipo de demência. Assim, entre 120 a 150 mil pessoas devem ter perturbações deste tipo em Portugal e o problema vai agravar-se substancialmente, porque se estima que o número duplique até 2030 e mais do que triplique até 2050.

A demência causada pela doença de Alzheimer é de longe a mais prevalente, mas as demências vasculares (problemas de irrigação cerebral) ou mistas também são frequentes.

http://www.publico.pt/portugal/jornal/lares-de-idosos-devem-ser-adaptados-para-pessoas-com-demencias-27278629

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