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terça, 22 outubro 2019 08:35

Eu tive cancro mas ele nunca me teve a mim

As dores nos pés e nos músculos não foram maiores do que a alegria de acordar todos os dias e sentir-me sempre viva, a melhorar e superar os meus objectivos. A vida deu-me uma oportunidade de uma outra vida.

Tinha 37 anos quando, depois de umas belas férias de Verão, a minha mama começou a achatar de lado, obrigando-me a compor o soutien que vincava na pele. Pensava sempre que não seria nada, afinal todos temos corpos diferentes e eu não sentia qualquer caroço. Até que, no final de Outubro, apalpei uma massa densa, espessa, e achei que, o que quer que estivesse a acontecer, era urgente saber o que se passava com o meu corpo. Consegui fazer ecografia e mamografia em pouco tempo, por minha conta, porque uns não estavam, outros vinham para a semana, precisava do papel A, B e C. Enfim… do resultado do exame passaram-me logo para biópsia e efectivamente a palavra que mais ouvia era “massa com uma arquitectura esquisita”. Da biópsia em tempo recorde chegou o resultado e a consulta com o oncologista: carcinoma ductal invasor grau 2, triplo positivo, com gânglios infectados e altamente influenciado pelas hormonas. Não me interessa o dia exacto do diagnóstico porque eu já o sabia. A vida passa por muitas fases e eu com a minha filha de três anos (na altura) e o meu marido íamos passar por uma fase menos boa. Era só isso e ponto final.

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O oncologista disse-nos calmamente o diagnóstico, tratamentos e objectivos traçados para darmos cabo do cancro. Eu respondi ao seu olhar preocupado dizendo que “antes a mim do que à minha filha, por isso vamos fazer tudo”. Comecei pela quimioterapia e imunoterapia para reduzir ou fazer desaparecer a massa espessa e era preciso parar as hormonas e, por isso, começar com um processo de menopausa induzida. Ter um segundo filho estava fora de questão. O caminho era sempre em frente.

Durante as nove sessões de quimioterapia tive tempo para parar, pensar, pensar que ia ler livros (que não consegui ler porque a quimio estagna o nosso pensamento), ouvir muita música, trabalhar (porque consegui sempre fazê-lo), passar do estado de “mãe lagarta” para, na Primavera, ser “mãe borboleta”. O cabelo caiu, mas o que mais me impressionou foram as sobrancelhas desaparecerem e o olhar ficar sem expressão.

As salas de quimioterapia impressionam qualquer um. Fazer quimioterapia era motivo de alegria porque afinal as minhas análises estavam bem. O olhar das pessoas quando vêem uma pessoa nova a fazer tratamento é de pena, mas o meu maior choque foi perceber que havia pessoas a fazer o tratamento sozinhas e que não contavam aos filhos o que se passava. Ou os filhos e maridos não tinham coragem para as acompanhar.

Dentro daquilo que me era permitido sonhar, sonhava em ver a minha filha crescer. Sonho sempre com isso. “As melhoras” era o que sempre nos dizíamos mesmo sabendo que poderíamos não nos ver mais. Cirurgia de mastectomia radical em Junho de 2016 porque afinal havia uma mancha milimétrica. E, na dúvida, retira-se a mama. Senti-me muito aliviada com a mastectomia embora soubesse que ia olhar para mim e havia uma parte de mim que não ia existir. Mas ela já não existia na minha cabeça.

Tudo passado com sucesso e segue-se a radioterapia: 35 sessões em pleno Verão. Pomadas, camadas de protecção e passei com distinção.

Descanso uns meses (mas continuo a trabalhar sempre) e, em Fevereiro, fiz a remoção do útero e ovários para não correr riscos de me aparecer outro tipo de cancro provocado pela medicação que tomo durante cinco anos. Com esta cirurgia era menos uma injecção. Tudo isto levou-me a engordar uns 12 quilogramas. Li muito sobre exercício físico, yoga, alimentação saudável e comecei a praticar tudo isto ao meu ritmo.

As dores nos pés e nos músculos não foram maiores do que a alegria de acordar todos os dias e sentir-me sempre viva, a melhorar e superar os meus objectivos. A vida deu-me uma oportunidade de uma outra vida. Trouxe-me mais empatia, mais respeito pelo tempo do outro, mais valor ao tempo que passo com a minha família. Eu tive cancro, mas ele nunca me teve a mim. Tentei fazer sempre a minha vida, durante estes anos todos, para que ele (o cancro) não tivesse o principal papel. O meu foco foi sempre a minha vida e não a minha morte.

No início do meu processo oncológico não queria pensar em reconstrução mamária porque cada coisa teria o seu tempo. Neste momento, iniciei o meu processo de reconstrução mamária porque tenho a certeza que o tempo é agora. O meu maior orgulho é ter tido esta capacidade de me saber reposicionar na minha vida e demonstrar isso todos os dias à minha filha e ao meu marido.

Não digo que sou uma guerreira porque não luto com ninguém nem com nada. Sou pela paz.

FONTE - Público

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