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segunda, 25 março 2019 15:25

Houve menos transplantes em 2018, mas número de doentes em espera também diminuiu

Com 57,3 anos, a idade média do dador é a mais elevada de sempre. Há alterações à lei que podem ser feitas para ajudar no processo, defende coordenadora nacional de transplantação.

O número de doentes à espera de um transplante em Portugal diminuiu no ano passado 3%. Um total de 2186 pessoas aguardavam por resposta. No entanto, o número total de órgãos transplantados também desceu: foram 829 em 2018, quando tinham sido 895 em 2017.

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Esta redução foi um reflexo quer da diminuição de órgãos transplantados de dadores falecidos (757) como de dadores vivos (72). Em 2017 estes números tinham sido 806 e 77, respectivamente.

A coordenadora nacional de transplantação, Ana França, ressalva que essa diminuição “é relativa”, uma vez que a doação de órgãos é imprevisível e variável. “Esta análise nunca pode ser feita num mês ou num ano”, mas sim num lapso de “cinco a 10 anos”.

A contribuir para a descida do número de órgãos transplantados, estão vários factores, como a idade média dos dadores ou a evolução das técnicas de tratamento. Nesta segunda-feira, na apresentação do relatório de actividade da doação e transplantação de órgãos, tecidos e células em 2018, a responsável do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) referiu que a idade média do dador de órgãos falecido em Portugal subiu para 57,3 anos, atingindo um pico, quando tinha sido de 53,8 em 2017 e de 55,1 em 2016. Este dado acompanha uma tendência de envelhecimento da população portuguesa.

Aos jornalistas, no final da sessão que decorreu no IPST de Coimbra, Ana França explicou que, com o aumento da média de idades, “a possibilidade de transplantar doentes a partir destes dadores é muito menor”. Assinalou igualmente a descida dos acidentes de viação como factor.

Na apresentação dos dados, a ministra da Saúde, Marta Temido, afirmou que a informação sobre transplantes não deixa de reflectir “a tendência generalizada do envelhecimento da população”. Por outro lado, “há uma evolução na terapêutica em algumas áreas, como a hepatite C ou a paramiloidose, que tem conduzido a uma menor necessidade de transplantação”.

No entanto, Ana França entende que há alterações legislativas que podem fazer com que haja um sistema de transplantações mais eficaz e um alargamento da base de dadores. Dá o exemplo das situações de paragem circulatória, que tem cinco categorias, sendo que a lei restringe a colheita de órgãos à segunda categoria. “Temos de ter abertura legislativa no sentido de os clínicos e os profissionais de saúde poderem ter oportunidade de aplicar todas as categorias”, defende, acrescentando que Ordem dos Médicos “já se mostrou aberta”.

Também a presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação alertou para a necessidade de encontrar caminhos alternativos. Em declarações à Lusa, para comentar os dados apresentados, Susana Sampaio mostrou-se preocupada com a diminuição do número de transplantes, apesar de considerar que era expectável face ao envelhecimento da população.

"Isto causa preocupação, porque pode acentuar-se o número de doentes em lista de espera [por um órgão]”, afirmou a médica, referindo que a média de idades dos dadores falecidos “significa que teremos dadores com mais de 70 ou mais de 80 anos”. Quanto a caminhos alternativos, sugeriu a campanhas de sensibilização da população para “promover a doação em vida”, no caso dos transplantes de rim, e aumentar as equipas nos hospitais para que tenham tempo e estejam mais atentas a potenciais dadores, nomeadamente nos cuidados intensivos.

76 doentes morreram

Em 2018, 76 doentes morreram quando aguardavam dador compatível, o que significa 2,9% do total dos pacientes em espera. “Comparando com os números internacionais, é um número baixo”, contextualiza Ana França. De acordo com os dados, dos doentes que faleceram em lista de espera, 16 aguardavam por um coração, um por pulmão, 18 por um fígado e 41 por um rim.

No caso dos doentes renais, 53% são transplantados em menos de dois anos. Há, no entanto, uma taxa de 7,5% que têm de esperar mais de cinco anos. Nesta percentagem enquadram-se, geralmente, situações de segundos e terceiros transplantes, que “acabam por ter muita rejeição” ao novo rim, refere França. “Esses doentes terão que ser alvo de medidas que estamos a trabalhar com a Sociedade Portuguesa de Transplantação.”

De acordo com Marta Temido, a performance dos hospitais deve ser motivo de análise. “Os hospitais mais de fim de linha, como os universitários, têm resultados muito assimétricos”, descreve. De facto, centros hospitalares universitários como o de Coimbra e o de São João, no Porto, tiveram 57 e 36 dadores, respectivamente, estando no topo da lista. O Centro Hospitalar Universitário do Porto teve 8 dadores em 2018. “Essa é uma das áreas que deve motivar, em termos de organização, a nossa atenção e nosso empenho”, afirma Marta Temido.

Estes hospitais têm equipas dedicadas à identificação de potenciais dadores entre os doentes internados nos cuidados intensivos. São elas que, alertadas pelos médicos que seguem os doentes que o desfecho será a morte, cumprem uma lista de procedimentos para avaliar se aquela pessoa pode ser dadora e que órgãos poderão vir a ser doados.

Notícia actualizada às 19h55. Numa primeira versão apresentavam-se apenas os dados relativos aos órgãos transplantados provenientes de dadores mortos.

FONTE - Público

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