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quinta, 07 dezembro 2017 16:48

Se quer fazer uma caminhada saudável escolha o parque, não as ruas

Caminhar tem benefícios para a saúde, mas fazê-lo numa rua com fumo de carros pode eliminar esses benefícios. Se a ideia parece ser de senso comum, agora foi demonstrada cientificamente.

Caminhe pela saúde. Mas se a única hipótese que tem é fazê-lo em ruas movimentadas onde acaba por aspirar os fumos dos carros, mais vale ficar em casa a dar voltas à mesa da sala. O melhor mesmo é escolher uma zona verde ou uma praia e pôr as pernas a mexer.

Fazer exercício faz bem, mas se o fizer em ruas com muito tráfego automóvel estes benefícios são parcial ou totalmente perdidos. E nem sequer é preciso muito tempo, duas horas a respirar partículas poluentes é o suficiente para sentir os efeitos negativos. Estas conclusões foram publicadas esta semana na revista científica The Lancet.

É certo que o trabalho contou apenas com 119 adultos com mais de 60 anos, mas a mensagem é para todas as pessoas, como defende Lidia Morawska, diretora do Laboratório Internacional da Qualidade do Ar e Saúde, na Universidade de Tecnologia de Queensland (Austrália). “A mensagem do estudo é para todos, quer estejam em Londres, Sydney ou qualquer outra cidade onde há trânsito e peões: não façam exercício onde houver carros. Não corram, caminhem, passeiem ou andem de bicicleta onde possam estar sujeitos a inalar os fumos dos carros.”

Os autores sugerem que as pessoas devem evitar andar em ruas movimentadas e devem caminhar em parques ou espaços verdes. Concordamos que isso é um bom conselho para caminhadas recreativas que podem escolher, mas para pessoas em deslocação ou às compras, mesmo numa cidade poluída como Londres, continuamos a incentivar que andem a pé ou de bicicleta”, comenta Marko Tainio, investigador na Universidade de Cambridge, que não participou no estudo.

Das pessoas envolvidas na investigação, 40 eram saudáveis, 40 tinham Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (um termo que designa doenças que provocam dificuldades em respirar) e 39 com doença cardíaca estável. Os participantes foram convidados a fazer uma caminhada de duas horas na Oxford Street, em Londres, ou numa zona sem trânsito do Hyde Park, na mesma cidade. Três a oito semanas depois, os participantes foram convidados a fazer a caminhada noutro local. Os investigadores puderam assim comparar os efeitos de uma e outra zona em cada um dos indivíduos.

Os participantes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica viram os sintomas da doença (tosse, expetoração, falta de ar e pieira) agravarem depois da caminhada na Oxford Street, enquanto que todos os participantes, mesmo os saudáveis, viram melhorias na função pulmonar depois da caminhada no Hyde Park. Benefícios esses que se prolongaram por 26 horas depois da caminhada.

O autor do estudo, Fan Chung, do Imperial College de Londres, reforça por isso que as pessoas não devem deixar de caminhar, se esse for o único exercício que fazem, mas que devem fazê-lo em espaços verdes ou sem tráfego automóvel.

Criar espaços verdes em cidades que estão a crescer rapidamente vai proteger a saúde dos residentes”, diz Billie Giles-Corti, investigadora sénior no Conselho Nacional de Investigação Médica e em Saúde, na Austrália, que não participou no estudo. “Este estudo foca-se apenas em adultos mais velhos, mas não existe razão para duvidar que se possa aplicar a outros residentes, em particular pessoas com problemas respiratórios ou pulmonares.”

Os resultados desta investigação foram valorizados por investigadores na área, mas há trabalho que deve ser feito para aprofundar as conclusões. Por um lado, neste trabalho foram avaliados os impactos de curto prazo e é preciso ver quais seriam os efeitos a longo prazo. Por outro lado, é preciso perceber se há outros benefícios na caminhada em Hyde Park além da falta de fumos dos veículos. Outra sugestão é que se faça o mesmo tipo de estudo noutras zonas da cidade, com e sem tráfego automóvel.

Em geral, os autores concluem que o trabalho tem uma mensagem clara: “Melhorar a qualidade do ar que todos partilhamos”. “Em Londres, a introdução de zonas de menor emissão teve pouco impacto na emissão de partículas poluentes. São necessárias soluções mais radicais, como a redução gradual dos táxis a gasóleo e a substituição destes por veículos elétricos.”

Billie Giles-Corti, que estuda o impacto do ambiente edificado na saúde e bem-estar diz que é preciso repensar onde colocar as habitações, escolas, creches e lares, tendo em conta a localização da zonas de tráfego. “Precisamos de avenidas arborizadas para peões e ciclistas, de forma a separá-los o máximo possível do tráfego, e temos de afastar o trânsito das áreas residenciais.”

“Muito importante, precisamos tornar as nossas cidades verdes, criar parques grandes o suficiente para as pessoas poderem caminhar e não apenas pequenos ‘parques de bolso’ no limite de uma rua movimentada”, acrescenta a investigadora.

FONTE - Observador

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