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terça, 29 abril 2014 19:14

Deixem-se de tretas

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Há colegas que não hesitam em rebaixar a actuação da Ordem e do Sindicato, mas nem sequer sabem o nome do Bastonário ou dos dirigentes sindicais…



Com alguma frequência, sobretudo nas redes sociais, vemos desabafos de colegas acerca das enormes dificuldades vividas no seu dia-a-dia, enquanto profissionais de saúde desta nobre arte. Como não poderia deixar de ser, estou solidário com o conteúdo da maioria desses relatos, mas há neles um certo sentimento de lançar a toalha ao chão, um desânimo profundo, uma inevitabilidade…

Creio que é o momento de assumirmos uma quota parte de responsabilidade pelo que se passa à nossa volta. Bem sei que sozinhos não podemos mudar o mundo, mas se ficarmos de braços cruzados, aí é que não pode ocorrer qualquer tipo de mudança.

Andamos todos muito ocupados com as nossas vidas quem nem damos conta de certas “coisas” que vão acontecendo: Não é estranho que alguém diga que a vida das pessoas não está melhor, embora o país esteja muito melhor?
Não é estanho que um ex-presidente de um banco fique livre da coima de um milhão de euros?
Não é estranho que um Primeiro-ministro não responda a uma deputada quando esta o confronta com a ausência de uma política de apoio à natalidade?
Não é estranho que o Estado assuma uma dívida de Luís Filipe Vieira ao BPN?
Não é estranho que os dirigentes do FC Porto contrariem as ordens de trânsito e de segurança impostas pela Polícia?
Não é estranho que esteja em discussão uma diminuição das indemnizações por despedimento ilegal?

É escandalosamente “deliciosa” aquela frase: eu não percebo nada de política…

As próximas eleições estão à porta. É tempo de nos interrogarmos sobre que Europa queremos nós.

No último andamento da sua 9ª sinfonia, Beethoven pôs em música a "Ode à Alegria", que Friedrich von Schiller escreveu em 1785. O poema exprime a visão idealista de Schiller, que era partilhada por Beethoven, em que a humanidade se une pela fraternidade. Sem palavras, na linguagem universal da música, o hino exprime os ideais de liberdade, paz e solidariedade que constituem o estandarte da Europa.

Um dos candidatos ao parlamento europeu irá, provavelmente, obter centenas de milhares de votos e, no entanto, diz que um documento assinado por 70 almas é masoquista e inoportuno. Ao mesmo tempo, apresenta o seu programa, baseando-se na história dos 101 Dálmatas. Apetece perguntar: quem será Cruella de Vil? Não sei se já têm planos para os próximos 20 anos.

Cavaco Silva diz que Portugal estará sob vigilância até 2035 e Oliveira Martins corrobora essa tese. Entretanto, Zeca Mendonça pontapeia Paulo Spranger e o INE revela que o risco de pobreza ronda os 20%...Diz um social-democrata (?) do nosso Governo: “estamos a falar de uma Europa em que alguns poupam para que outros possam gastar”…

Se um ex-governante conclui a licenciatura ao Domingo, todos os que o elegeram devem interrogar-se sobre se no futuro serão mais exigentes na escolha da pessoa em quem vão votar.

O mesmo se aplica ao estratega da campanha de vitória de um outro governante, que obteve um grau académico por equivalência.

Há algo no meio de tudo isto que espelha a sociedade em que vivemos… o “nós” colectivo nacional, que sistematicamente se queixa disto e daquilo… mas se alguém nos fala baixinho ao ouvido com uma palmadinha nas costas, provavelmente, deixamo-nos ir na cantiga. E depois de lá estarmos, agarramo-nos ao trono…

Estas poucas notas soltas sobre a realidade do nosso país dão-nos uma ideia do que está em jogo em cada dia que passa, e do quanto temos sido permissivos... Viver em democracia exige de cada um de nós um acompanhamento das decisões que vão sendo tomadas e dos resultados por elas produzidos.

Também na profissão devemos ser activos, participando nas Assembleias do Sindicato e da Ordem. Não basta inundar de likes o perfil do Facebook dos nossos colegas “Tiagos” que partem para o estrangeiro (o que foi feito desde a partida dos colegas Pedros Marques?)…

É fundamental tomar parte na discussão de ideias sobre os caminhos que queremos seguir, sob pena de no futuro acordarmos para a realidade e muita coisa errada já ter sido feita. Há colegas que não hesitam em rebaixar a actuação da Ordem e do Sindicato, mas nem sequer sabem o nome do Bastonário ou dos dirigentes sindicais…

É muito interessante aquela ideia frequentemente presente no nosso discurso: “o sindicato não faz nada e por isso deixei de pagar as cotas”. Porque não fazer o mesmo em relação à Ordem dos Enfermeiros ou ao Estado?!

Já agora, permitam-me uma pequena sugestão: leiam (paguem) um jornal ou uma revista, pelo menos de vez em quando. As edições online até têm promoções muito interessantes :)

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Ricardo Silva

Licenciado em Enfermagem


Exerce no Bloco Operatório de Urgência