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terça, 21 janeiro 2014 19:00

Angry Nurses

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 Há uns tempos atrás, a empresa Obrivenda Lda., detentora da Residência Sénior Algeruz-Villas, colocou um ANÚNCIO DE EMPREGO no site Net-empregos, solicitando um enfermeiro para ocupar o cargo de auxiliar de lar. O salário seria de 650 euros e haveria uma "possível integração nos quadros da empresa".

 O pedido foi verdadeiro e as condições eram claras, mas a iniciativa é moralmente indigna. Pede-se que um profissional qualificado vá ocupar uma posição abaixo das suas qualificações? Qual é a finalidade? Porque não pedir uma qualquer pessoa para ocupar a vaga de auxiliar de lar? Porquê um enfermeiro? Os lares até podem estar em dificuldades com a crise económica, mas querem oferecer um salário semelhante ao que a ARS ofereceu há tempos atrás (3.96€/hora)?? Os lares estariam à espera que, depois de lá ter os enfermeiros a trabalhar, lhes exigissem outras funções? Se um enfermeiro aceitasse (qualquer que fosse a sua razão), não estaria a abrir mais um precedente para a exploração a que estes profissionais têm sido sujeitos?

A polémica foi para o "ar" quando vários enfermeiros alertaram para esta oferta, numa página do Facebook. Os enfermeiros estavam furiosos, verdadeiros "angry nurses". Quem conhece o jogo Angry Birds, sabe que um conjunto de pássaros é constantemente atacado e enganado por suínos, sendo necessário derrotá-los. Cabe ao jogador atirar os pássaros através de uma fisga, para destruir as barreiras erguidas pelos ditos suínos.

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Se pensarmos bem, esta situação assemelha-se bastante ao referido jogo: na realidade os "suínos" queriam enganar os "pássaros" e fizeram uma oferta de emprego potencialmente danosa. Era urgente terminar com o anúncio, evitar a contratação de um destes colegas e fazer ver à empresa que este anúncio era imoral e atentatório da dignidade profissional. O que é que se pode fazer neste tipo de situações, ou como é que os "pássaros" conseguem destruir as barreiras entretanto levantadas?

Entre os elementos que participavam na conversa no facebook, decidiu-se avisar as entidades competentes por e-mail e telefone (OE e Sindicatos), mas será que isso bastava? Voltando ao jogo, temos diferentes tipo de "pássaros", cada um com a sua função especial. Só o uso combinado dos diferentes "pássaros" permite destruir essas barreiras com eficácia. Assim, depreendemos que usar só o tipo de "PÁSSARO LEGAL" - OE e Sindicatos - poderia não ser suficiente para atingir o sucesso.

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Optou-se por uma ação eficaz, mas inovadora no seio da profissão: elaborou-se uma carta de resposta ao anúncio, que seria ENVIADA EM MASSA para o e-mail da empresa contratadora. Assim, foi produzido o texto seguinte, que dezenas de enfermeiros enviaram:

"Caríssimo(a) possível empregador,
Tomei conhecimento do anúncio de emprego que colocou no Net Empregos em http://www.net-empregos.com/detalhe_anuncio_livre.asp?REF=1875777#.UtkjNLTky6x#ixzz2qethvg2w e é com profundo espanto que observo um possível engano ou mal-entendido no conteúdo do texto. Procura ajudantes de lar ou procura enfermeiros? Já imaginou se procurasse um jardineiro para ocupar o cargo de cozinheiro?
Deixe-me esclarecê-lo: o enfermeiro é um profissional de saúde com formação superior (mínimo licenciatura), que lhe permite diagnosticar problemas de enfermagem, planear e prestar cuidados que promovam a independência funcional, a recuperação da doença e a reabilitação. Na população idosa, o Enfermeiro é o profissional mais indicado para detetar e prevenir complicações como úlceras de pressão, quedas, pneumonias, aspiração, infeções variadas, desidratação e morte. O número correto de enfermeiros e a experiência destes permite melhorar a saúde dos idosos, aumentar a qualidade de vida e evitar o número de internamentos hospitalares. Conclui-se que ter um enfermeiro a trabalhar num lar reduz os custos de saúde e poupa milhares de euros ao SNS e a todos nós contribuintes.
No entanto, temo informar que o que fica mais barato a toda a sociedade, lhe fica mais caro a si. Isto se ainda quiser contratar enfermeiros como enfermeiros. É que se quer profissionais habilitados para fazer tudo o que referi anteriormente, vai ter de pagar por essa qualificação. Não se engane. Se quer um lar cheio de idosos ao invés de um lar a meio-gás por falecimentos constantes, resultantes de maus cuidados de saúde, terá de pagar para ter esse serviço. Por isso, apelo à sua boa intenção para que reveja urgentemente este lapso de conteúdo de texto, que, de outro modo, soaria a exploração de força de trabalho qualificado.
Certo de que corrigirá este lapso, informo também que já foram contactadas as entidades reguladoras da profissão de Enfermagem para que acompanhem o processo e tomem, caso necessário, as medidas adequadas.
E se escolher ajudantes de lar para preencher esses cargos que deseja (que, por mais esforçadas e profissionais que possam ser, não estão habilitadas a prestar cuidados de saúde), mais valerá colocar um anúncio neste género:
Procura-se dono(a) de lar para ocupar cargo de dono de funerária com Ordenado Base 650€. Responder apenas se estiver interessado nas condições. Boas condições (climatéricas), possível integração nos quadros da empresa (tenho um amigo meu que é pintor e depois deixa lá um quadro como o seu retrato).
Melhores cumprimentos".

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Este era mais um "pássaro", o da CONFRONTAÇÃO DIRECTA.


Mas ainda havia outro na manga, o da PUBLICIDADE NEGATIVA: a página da instituição no facebook. Com respeito mas com semelhante nível de imoralidade, vários enfermeiros começaram a colocar as suas próprias respostas ao anúncio! A página do facebook foi inundada de comentários irónicos e respostas à altura, que incluíram figuras de trabalho escravo infantil. Era possível classificar a página de 1 a 5 estrelas, algo que é disseminado no mural do próprio classificador: dessa forma, a Algeruz-villas foi publicitada como tendo 1 estrela, com comentários em consonância, que foram amplamente disseminados pela rede social.

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Como sabemos, agravar a imagem de QUALQUER INSTITUIÇÃO é das piores coisas que se pode fazer: gera descrédito, afasta investidores e diminui o número de consumidores, podendo provocar a ruína. Neste caso, era mais que justificado.

Pela primeira vez em muito tempo, e numa iniciativa totalmente inédita, foi atingido o sucesso: EM POUCO MAIS DE 24 HORAS, a entidade empregadora removeu o anúncio ...

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... cancelou a página do facebook e será alvo de uma inspeção da Segurança Social e da OE! O uso de estratégias combinadas FUNCIONA!

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Usar as REDES SOCIAIS E OS CANAIS INFORMAIS, de forma MASSIVA, altera os resultados e permite ALCANÇAR O SUCESSO! Sem a participação de TODOS os enfermeiros, nada disto teria sido possível!

Não nos enganemos, pois ainda há outro ensinamento a retirar deste jogo: não basta desmoronar uma estrutura. Como nos ensina o Angry Birds, existem vários níveis, para serem jogados de cada vez e são mais que muitos. Não basta, por isso, ter ficado contente com um resultado e fugir. Não tarda nada temos de usar os "pássaros" todos para derrotar outra estrutura feita pelos "suínos".


Esta situação levanta duas questões para aceso debate, que DEVE COMEÇAR JÁ:

- Qual a função dos enfermeiros nos lares de idosos e como podemos medir a necessidade de cuidados de Enfermagem que estas Instituições REALMENTE NECESSITAM?

- Será esta estratégia a mais correcta? Deveria ter sido só a OE e os Sindicatos a agir? Que outros "pássaros" podemos utilizar?

Abraço e bons jogos! :)

 

Ler 5734 vezes Modificado em terça, 21 janeiro 2014 19:28
Rodrigo Cardoso

Licenciado em Enfermagem

Mestre em Enfermagem (Área de Especialização em Supervisão Clínica)

Doutorando em Ciências de Enfermagem no ICBAS-UP

Exerce no Instituto Português de Oncologia de Coimbra

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