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domingo, 03 agosto 2014 22:08

Ricardo Silva | 10 anos de FE

 Foi um colega do serviço onde exercia na altura (2005), que me deu a conhecer o site Fórum Enfermagem.

Sou enfermeiro desde 2003 e trabalho actualmente no Hospital de Santa Maria em Lisboa. Foi um colega do serviço onde exercia na altura (2005), que me deu a conhecer o site Fórum Enfermagem. Inscrevi-me nesse ano e a partir daí passei a visitar o espaço com alguma regularidade. Se a memória me não falha, em tempos, existiu no site da Ordem dos Enfermeiros um link para um espaço de discussão (fórum) que nunca chegou a ser utilizado. Por aqui se percebe o enorme potencial de uma ideia deste género. Estão de parabéns os fundadores do FE pelos 10 anos de vida, mas sobretudo porque acreditaram num projecto inovador. As centenas de debates a que se assistiu constituem uma parte importante do património histórico recente da profissão.

A existência de uma comunidade online de enfermeiros, é uma mais-valia na medida em que permite que se estabeleçam pontes que, de outro modo, não seriam possíveis. Bem sei que há muitos colegas que não são utilizadores assíduos das redes sociais e plataformas afins, mas é inquestionável o valor que estas podem ter para uma profissão: debater ideias entre enfermeiros é hoje possível, independentemente do ponto do país (ou estrangeiro) em que estejamos. Acredito, por exemplo, que as últimas eleições para a OE tiveram no seu desfecho, um peso significativo daquilo que se passou/disse/escreveu na web. Nem tudo são rosas, e esta facilidade comunicacional tem muita contra-informação à mistura. Significa que não estamos dispensados dos tradicionais espaços de debate sobre a profissão: assembleias gerais da OE e de outras organizações.

Um pouco à semelhança da sociedade, os enfermeiros “cibernautas” reagem facilmente a uma notícia mais sensacionalista ou a um desabafo mais emotivo de um colega. Vemos isso, por exemplo, através dos “likes” no Facebook. Se olharmos para análises mais completas dos assuntos, o impacto é muitíssimo menor. Percebo que as pessoas joguem à defesa e não se queriam expor. Falta, talvez, criar mecanismos de consulta dos enfermeiros, que sejam práticos, que garantam confidencialidade, e sobretudo, que produzam resultados.

Creio que a profissão evoluiu bastante nos últimos 10 anos, pelo menos em algumas frentes. Conseguimos “provar” à sociedade que estamos em pé de igualdade com outras profissões na produção de conhecimento científico. Faltou-nos, parece-me, a coragem de aplicar no terreno os frutos resultantes desses mestrados e doutoramentos. Por outro lado, fica a ideia que quando alguém investe na sua formação, está a “preparar” um certo distanciamento da prestação de cuidados, o que é pena. Sei que há excepções, e honra lhes seja feita.

A evolução da saúde em Portugal alterou-se consideravelmente nos últimos 10 anos. Isso é assim, porque também o país está diferente: em 2004 organizamos o europeu do futebol e fomos à final; em 2014, não passamos da fase de grupos no mundial e levamos 4 (podiam ter sido mais) da Alemanha; agora mais a sério: há um contexto do qual não podemos fugir; é preciso perceber que impacto têm no país, assuntos como a globalização, a União Europeia e a moeda única (e não esqueçamos os 20% da população que vive na pobreza e os baixíssimos índices de natalidade). Além disso, é crucial que os portugueses não tenham memória curta: olhem para quem nos governa e pronunciem-se nas eleições. Não quero ser pessimista, mas ainda assisto no dia-a-dia a um alheamento sobre temas sérios por parte de alguns colegas de trabalho (enfermeiros mas não só). Alguns até me dizem que não têm pachorra para ir votar… O estado da saúde (e os nossos salários) vai depender do estado do país. É evidente aos olhos de todos que, nos últimos anos, houve um ganho de terreno por parte do sector privado e um recuo na força do SNS. Nesse cenário, há duas questões incontornáveis: os cidadãos estão melhor servidos? os enfermeiros são mais respeitados enquanto profissão?
Acho que não!

Quando comecei a trabalhar como enfermeiro, vários colegas só tinham o bacharelato. Hoje, além da licenciatura, percebe-se que a especialidade pode ter um contributo decisivo na nossa afirmação como profissão. Isto remete-nos para a necessidade de reformular as nossas áreas de especialização e a sua operacionalização nos contextos clínicos. Na Escola de Saúde de Setúbal estão a dar-se passos importantes na área do peri-operatório. Quem exerce nesta área e não pode (ou não quer) optar por esta oferta formativa, tem ao seu dispor pós graduações ou cursos de curta duração (ou então, cada um que seja autodidacta). Provavelmente, nos próximos anos, serei um dos alunos dos cursos de especialização, ou então, pode dar-se o caso de frequentar um outro curso universitário. Nesse caso, espero poder continuar a exercer como enfermeiro, porque embora reconheça que estamos a enfrentar muitas dificuldades enquanto profissão, prestamos um serviço inestimável à sociedade.