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domingo, 08 novembro 2009 17:57

Salvador Mendes Almeida

Tenho aprendido que na vida temos de nos focar naquilo que somos bons. E fazer das desvantagens uma vantagem.

 

Entrevista conduzida pela Enfermeira Rita Filipe

in  http://hojefuiconversarcom.blogs.sapo.pt

 

É impossível ficar indiferente ao Salvador. A energia com que explica os seus projectos contrastam com o corpo preso a uma cadeira de rodas. Falámos de sonhos, acessibilidades e do seu mais recente desafio, o programa de televisão com o seu nome.

 

"Tenho aprendido que na vida temos de nos focar naquilo que somos bons. E fazer das desvantagens uma vantagem."

 

"Acho que o programa vai ter bastante impacto, até porque aborda a temática da deficiência mas de uma maneira séria, optimista, e não lamechas. Mais do que uma lição de vida, espero que o programa ajude a mudar mentalidades. "

 

Rita Filipe – Quem é o Salvador?

Salvador Mendes Almeida – É um jovem com 27 anos, alegre, bem disposto, de bem com a vida e que aos 16 anos teve um acidente de mota. Tive uma infância normal, estudava, saia à noite, tinha as minhas namoradas, jogava râguebi, jogava futebol, praticava jet ski, praticava equitação, cheguei a ficar em 5º lugar num campeonato nacional. Sempre fui uma pessoa bastante activa e de um momento para o outro deixei de o ser. Quando se sofre um acidente assim existe um grande choque. No início nem tinha consciência das minhas limitações, nem da minha situação, mas o apoio da minha família e dos meus amigos foi muito importante para o desenrolar da minha vida.

 

RF – Como surge a Associação Salvador?

SMA – Desde que tive o acidente e que fui retomando o contacto com a realidade, fui percebendo que não era uma situação passageira, que não era dali a um ou dois anos que ia voltar a andar, tive de me confrontar com várias situações. Com o problema das acessibilidades, dos transportes, felizmente tive uma carrinha adaptada, os amigos com que costumo estar, mas também é muito importante a nossa força de vontade e a nossa auto-estima. Porque se calhar há pessoas que têm tudo e depois fecham-se e isolam-se. Não escondo que também tive os meus momentos menos bons, há alturas em que me custa imenso estar nesta cadeira de rodas, em que tenho muitas saudades de fazer todos os desportos que já referi, e da minha independência. Tenho aprendido que na vida temos de nos focar naquilo que somos bons. E fazer das desvantagens uma vantagem. Quando estava a terminar o curso, fundei a Associação Salvador porque percebi que os apoios para pessoas com deficiência e os apoios nesta área das acessibilidades são poucos ou inexistentes. Portanto há muita coisa por fazer.

 

RF – O Salvador recebe muitos pedidos de ajuda na associação?

SMA – Sim recebemos bastantes. Desde pedidos de cadeiras de rodas, a adaptações para uma casa, pedidos de informação para transformações de carros, desde pessoas que procuram eventos de convívio para se integrarem e para estarem com pessoas na mesma situação. Recebemos diversos pedidos aos quais tentamos responder da melhor forma para respondermos à nossa missão que é a integração plena das pessoas com mobilidade reduzida.

 

RF – A Associação vive do mecenato?

SMA – Exactamente. É uma associação sem fins lucrativos, vive de mecenas, de empresas que nos apoiam mas também de particulares que podem contribuir através de 2 euros por mês, através de uma mensalidade, tornando-se amigo da associação Salvador. Tornar-se amigo é não só comparticipar com uma verba mensal, anual o que a pessoa entender, mas também a nível de voluntariado. Desde levar uma pessoa paraplégica da zona onde habita a passear, desde ser nosso voluntário em eventos de convívio.

 

RF – A partir de Segunda-feira, 12 de Outubro, a Associação vai passar a ter com certeza uma visibilidade diferente. Estreia na RTP1 o programa Salvador. Fale-me deste desafio.

SMA – O programa tem 13 episódios. Em cada semana apresento uma história de vida de uma pessoa positiva, com coragem. Damos a conhecer pessoas que vivem com muitas dificuldades no seu dia-a-dia mas não foi por isso que deixaram de lutar e de viver. Pelo contrário. São pessoas muito activas e com uma grande energia. E são uma lição para mim e para todas as pessoas que ouvimos frequentemente a queixarem-se por tudo e por nada, quando há pessoas em situações muito mais difíceis. Acho que o programa vai ter bastante impacto, até porque aborda a temática da deficiência mas de uma maneira séria, optimista, e não lamechas. Mais do que uma lição de vida, espero que o programa ajude a mudar mentalidades. Às vezes as pessoas não dão emprego a pessoas deficientes, ou pensam coitadinho, e põem-no na recepção a atender o telefone. Existem muitas pessoas com vários tipos de deficiências e capazes de desempenhar várias tarefas. Eu trabalho na associação, controlo toda a parte estratégica, de angariação de fundos, contactos, organização dos nossos eventos e das nossas campanhas. Mas existem várias pessoas como eu. Desde engenheiros a economistas. Têm é de ter um meio adequado para se integrarem como qualquer outra pessoa.

 

RF – Portugal é um país complicado na questão das acessibilidades?

SMA – As pessoas são pouco respeitadoras. Eu quero acreditar que quando alguém estaciona num lugar reservado a uma pessoa com deficiência, ela não tem noção do que faz. Porque se conhecesse as dificuldades que as pessoas sentem no dia-a-dia, ter que tirar a cadeira, ter que a pôr, se está a chover demora mais tempo ainda, se estaciona mais longe ainda terá possivelmente de subir a um passeio… são inúmeras as barreiras.

 

RF – Qual foi o maior desafio da sua vida?

SMA – O mais radical foi ter mergulhado a mais de 30 metros de profundidade e depender sempre de terceiros. E eu não poder controlar nada. Quando penso nisso acho um bocado inconsciente. Se acontece alguma coisa à outra pessoa eu não consigo sair de lá. O mergulho foi um dos grandes desafios da minha vida. O mergulho é assim o mais radical, mas todos os dias temos que desafiar-nos a nós próprios. Para fazer mais daquilo que fazemos e cada vez melhor. O desafio em que estou neste momento mais empenhado, é através da associação Salvador, a construção de um Portugal mais acessível.

 

RF - É esse o seu maior sonho Salvador?

SMA – Não é o maior, tenho outros sonhos como casar e ter filhos, voltar a andar, mas são coisas que não acontecem de hoje para amanhã. São projectos a longo prazo. A construção de um Portugal mais acessível também é uma coisa faseada, mas enquanto profissional desta área de acção social, onde a associação faz o seu trabalho, é onde me sinto mais realizado.

 

RF – Com todas as dificuldades que enfrenta diariamente, onde é que o Salvador encontra a sua força?

SMA – Faço questão de me rodear de pessoas com energia positiva. Acho que às vezes temos um conceito errado de felicidade. A felicidade não consiste apenas em momentos bons. A felicidade duradoura é um processo contínuo.